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terça-feira, 2 de agosto de 2022

ARQUIVOS SOVIÉTICOS - UMA HISTÓRIA OCULTA DO MAL - POR QUE NINGUÉM SE INTERESSA PELOS ARQUIVOS SOVIÉTICOS AINDA NÃO LIDOS?


Uma História oculta do Mal 

Uma História oculta do Mal

POR QUE NINGUÉM SE INTERESSA PELOS ARQUIVOS SOVIÉTICOS AINDA NÃO LIDOS?

Claire Berlinski

Embora Mikhail Gorbatchev seja idolatrado no Ocidente, os arquivos ainda não traduzidos sugerem uma figura muito mais sombria

Na consciência coletiva do mundo, a palavra "nazista" é um sinônimo do mal. É amplamente reconhecido que a ideologia dos nazistas - nacionalismo, anti-semitismo, o estado autárquico, o conceito do Führer - levou diretamente aos fornos de Auschwitz. Não se reconheceu tão bem, nem de longe, que o comunismo levou, de forma igualmente inexorável, em todas as partes do globo onde foi aplicado, a fome, tortura e campos de trabalho escravo. E nem é amplamente reconhecido que o comunismo foi responsável pela morte de uns 150 milhões de seres humanos durante o século 20. O mundo permanece inexplicavelmente indiferente e desinteressado a respeito da mais mortífera ideologia na história da humanidade.

Como prova desta indiferença, considere os arquivos soviéticos, que ninguém leu. Pavel Stroilov, um russo exilado em Londres, tem em seu computador 50 000 documentos super-secretos do Kremlin, ainda não traduzidos nem publicados, a maioria datando do final da Guerra Fria. Ele os roubou em 2003 e fugiu da Rússia. Muitos ainda se lembram de um tempo em que eles teriam valido milhões para a CIA eles certamente contam uma história do comunismo e seu colapso que o mundo precisa conhecer. E no entanto, ele não consegue encontrar ninguém que os recolha a uma biblioteca de reputação, publique-os ou financie sua tradução. Na verdade, ele não consegue encontrar ninguém que se tenha lá muito interesse neles.

E há o dissidente soviético Vladimir Bukovsky, que já passou 12 anos nas prisões, campos de trabalho e psikhushkas - hospitais psiquiátricos políticos - da URSS, após ser condenado por reproduzir literatura anti-soviética. Também ele posui uma enorme coleção de documentos roubados e contrabandeados dos arquivos do Comitê Central do Partido Comunista, os quais, como diz ele, "contêm as origens e os fins de todas as tragédias de nosso século sangrento." Estes documentos estão disponíveis online em bukovsky-archives.net*, mas a maioria não está traduzida. Eles estão desorganizados não há sumários não há um mecanismo de busca ou um índice. "Eu os ofereço de graça para os mais influentes jornais e periódicos do mundo, mas ninguém quer publicá-los," diz Bukovsky. "Os editores dão de ombros com indiferença: E daí? Quem liga para isso?”

Os originais da maioria dos documentos de Stroilov continuam nos arquivos do Kremlin, onde, como a maior parte dos documentos super-secretos do período pós-Stálin da União Soviética, eles continuam vetados ao público. Eles incluem, diz Stroilov, transcrições de quase todas as conversas entre Gorbachev e seus homólogos estrangeiros - centenas deles: um registro diplomático quase completo de uma era e que não está disponível em nenhum outro lugar. Há observações do Politburo anotadas por Georgy Shakhazarov, um assessor de Gorbachev, e pelo membro do Politburo Vadim Medvedev. Há o diário de Anatoly Chernyaev — o principal assessor de Gorbachev e vice-líder do órgão conhecido antigamente como o Comitern — o qual vai de 1972 até a queda do regime. Há relatórios dos anos 60 da autoria de Vadim Zagladin, vice-líder do Departamento Internacional do Comitê Central até 1987 e consultor de Gorbachev até 1991. Zagladin era tanto diplomata quanto espião, encarregado de coletar informações secretas, espalhar desinformação e promover a influência soviética.

Quando Gorbachev e seus assessores foram removidos do Kremlin, eles levaram consigo cópias não-autorizadas destes documentos. Os documentos foram escaneados e arquivados nos arquivos da Fundação Gorbachev, um dos primeiros think tanks da Rússia moderna, onde um punhado de pesquisadores simpáticos e selecionados tiveram acesso limitado a eles. Então, em 1999, a fundação abriu uma pequena parte do arquivo a pesquisadores independentes, incluindo Stroilov. As partes centrais da coleção permaneceram restritas os documentos só podiam ser copiados com a autorização por escrito do autor e Gorbachev recusava-se a autorizar quaisquer cópias que fossem. Mas havia uma falha na segurança da fundação, como Stroilov explicou para mim. Quando havia algo de errado com os computadores, como frequentemente ocorria, ele conseguia ver o responsável pela área de informática digitar a senha que dava acesso à rede da fundação. Lentamente e em segredo, Stroilov copiou o arquivo e o enviou para locais seguros em várias partes do mundo..

Na primeira vez em que ouvi falar dos documentos de Stroilov, perguntei-me se não seriam falsificações. Mas em 2006, tendo avaliado os documentos com a cooperação de proeminentes dissidentes soviéticos e espiões da época da Guerra Fria, alguns juízes britânicos concluíram que podia-se acreditar em Stroilov e deram aval a seu pedido de asilo político. Desde então a própria Fundação Gorbatchev reconhece a autenticidade dos documentos.

A história de Bukovsky é semelhante. Em 1992, o governo do presidente Boris Yeltsin o convidou para testemunhar na Corte Constitucional da Rússia, em um caso envolvendo a a constitucionalidade do Partido Comunista. O Arquivo do Estado Russo concedeu a Bukovsky acesso a seus documentos, para ele preparar seu testemunho. Usando um scanner manual, ele copiou milhares de documentos e os contrabandeou para o Ocidente.

O Estado Russo não pode processar Stroilov nem Bukovsky por quebra de direitos autorais, já que o material foi produzido pelo Partido Comunista e pela União Soviética, nenhum dos quais existe mais. Entretanto, se tivesse permanecido na Rússia, Stroilov acredita que poderia ter sido assediado judicialmente por revelar segredos de estado ou por traição. O historiador militar Igor Sutyagin está agora cumprindo 15 anos de prisão em um campo de trabalhos forçados pelo crime de coletar recortes de jornal e outros materiais de fontes abertas e mandá-los para uma empresa de consultoria britânica. O perigo que Stroilov e Bukovsky enfrentaram foi real e sério eles supuseram - ao menos é o que se imagina - que o mundo daria atenção àquilo pelo qual eles tinham arriscado tanto para conseguir.

Stroilov afirma que seus documentos "contam uma história completamente diferente sobre o fim da Guerra Fria. A visão 'geralmente aceita' da história daquele período consiste quase que inteiramente em mitos. Estes documentos são capazes de destruir cada um destes mitos." Será? Eu não saberia dizer. Eu não leio russo. Dos documentos de Stroilov, eu só vi os poucos que foram traduzidos para o inglês. Certamente, eles não devem ser tomados por seu valor de face eles foram, afinal de contas, escitos por comunistas. Mas a possibilidade de que Stroilov esteja correto certamente deveria causar grande curiosidade.

Os documentos, por exemplo, apresentam uma imagem muito mais sombria de Gorbachev do que a que se criou dele. Em um documento, ele ri com o Politburo da derrubada do vôo 007 da Korean Airlines pela URSS, em 1983 - um crime não só monstruoso, mas que pôs o mundo muito perto de um Armagedon nuclear. Estes minutos de uma entrevista com no Politburo, em 4 de outubro de 1989, são igualmente perturbadores:

Lukyanov informa que o número verdadeiro de vítimas na Praça da Paz Celestial foi de 3 000 pessoas.

Gorbachev: Temos que ser realistas. Eles, com nós, precisam se defender. Três mil... E daí?

E uma transcrição de uma conversa de Gorbachev com Hans-Jochen, líder do Partido Social-Democrata da Alemanha Ocidental, mostra Gorbachev defendendo as tropas russas no massacre de manifestantes pacíficos em Tiblisi, em 9 de abril de 1989.

Os documentos de Stroilov também contêm transcrições das discussões de Gorbachev com muitos líderes do Oriente Médio. Elas sugerem interessantes ligações entre a política soviética e tendências atuais da política externa russa. Eis aqui um trecho de uma conversa que está registrada como tendo ocorrido com o presidente sírio Hafez al-Assad, em 28 de abril de 1990:

H. ASSAD. Para pôr pressão sobre Israel, Bagdá teria que se aproximar de Damasco, porque o Iraque não tem fronteiras comuns com Israel...

M. S. GORBACHEV. Eu também acho...

H. ASSAD. A postura de Israel é diferente, porque a própria religião judaica afirma: a terra de Israel se expande do Nilo ao Eufrates e o seu retorno é uma predestinação divina.

M. S. GORBACHEV. Mas isto é racismo, cobinado com Messianismo!

H. ASSAD. Este é o tipo mais perigoso de racismo.

Não é preciso ser um sonhador para se perguntar se estas discussões podem ser relevantes para nossa compreensão da atual política Russa para uma região de permanente importância estratégica.

Há outros aspectos sob os quais a história que os documentos de Stroilov e Bukovsky contam não acabou. Eles sugerem, por exemplo, que os arquitetos do projeto da integração européia, bem como muitos dos líderes de alto escalão da União Européia, estavam inquietantemente próximos da URSS. Isto levanta questões importantes sobre a natureza da Europa atual - questões que podem ser colocadas, quando os americanos consideram a Europa como um modelo de política social ou quando eles buscam a cooperação diplomática européia em assuntos centrais de segurança nacional.

De acordo com os relatos de Zagladin, por exemplo, Kenneth Coates, que de 1989 a 1998 foi um representante britânico no Parlamento Europeu, procurou Zagladin em 9 de janeiro de 1990 para discutir que constituia uma verdadeira fusão gradual do Parlamento Europeu com o Soviet Supremo. Coates, diz Zagladin, explicou que "a criação de uma infraestrutura de cooperação entre os dois parlamento(s) ajudaria a isolar os direitistas no Parlamento Europeu (e na Europa), aqueles que estão interessados na queda da URSS." Coates trabalhou como presidente do Subcomitê de Direitos Humanos do Parlamento Eropeu, de 1992 a 1994. Como é que a Europa pode ter recebido conselhos de um homem que aparentemente desejava "isolar" os interessados na queda da URSS e procurou extender a influência soviética sobre a Europa?

Ou considere um relato sobre Francisco Fernández Ordóñez, que liderou a integração da Espanha à Comunidade Européia, enquanto era ministro do exterior. Em março de 1989, de acordo com estes documentos, ele explicou a Gorbachev que "o sucesso da perestroika significa só uma coisa — o sucesso da revolução socialista em condições atuais." Dezoito meses depois, Ordóñez disse a Gorbachev: "Eu sinto um nojo intelectual quando eu tenho que ler, por exemplo, trechos de documentos do ‘G7’ em que os problemas da democracia, da liberdade da personalidade humana e a ideologia da economia de mercado são colocados no mesmo nível. Como socialista, eu não posso aceitar umaa tal equação." O mais chocante talvez seja que a imprensa da Europa Oriental relatou que os documentos de Stroilov sugerem que [o presisente socialista francês] François Mitterran fez manobras juntamente com Gorbachev para assegurar que a Alemanha se unificaria como uma entidade socialista e neutra, sob um condomínio Franco-Soviético.

Os registros de Zagladin também observam que o ex-líder do Partido Trabalhista Britânico, Neil Kinnock, contatou Gorbachev - sem autorização, enquanto era líder da oposição - através de um emissário secreto, para discutir a possibilidade de freiar o programa Trident de mísseis nucleares do Reino Unido. O registro do encontro de alguns minutos entre Gorbachev e o emissário, o deputado Stuart Holland, é o seguinte:

Na opinião [de Holland], a União Soviética deveria estar muito interessada na liquidação dos 'Tridents', porque, além de outras coisas, o Ocidente - quer dizer, os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a França - teriam uma séria vantagemsobre a União Soviética, depois que o tratado START estivesse completo. Será preciso eliminar esta vantagem... Ao mesmo tempo, Holland observou que, é claro, nós pedemos pensar seriamente sobre a realização desta idéia se o Partido Trabalhista chegar ao poder. Ele disse que Thatcher... nunca concordaria com nenhuma redução do armamento nuclear.

Kinnock foi vice-presidente da Comissão Européia de 1999 a 2004 e sua esposa, Glenys, agora é a ministra da Grã-Bretanha para a Europa. Gerald Batten, membro do Partido da Independência do Reino Unido, comentou sobre a relevância do episódio: “Se o relato passado ao Sr.. Gorbachev for verdadeiro, isto significa que Lord Kinnock procurou um dos inimigos da Grã-Bretanha a fim de buscar aprovação em relação à política de defesa de seu pertido e, se ele tivesse sido eleito, da política de defesa da Grã-Bretanha," disse Batten ao Parlamento Europeu, em 1999. "Se este relato for verdadeiro, então Lord Kinnock seria culpado de traição."

Um caso semelhante é o da Baronesa Catherine Ashton, que agora é ministra do exterior da União Européia e foi tesoureira da Campanha da Grã-Bretanha pelo Desarmamento Nuclear entre 1980 e 1982. Os documentos oferecem provas de que esta organização recebeu "fundos não-identificados" da União Soviética durante os anos 80. Os documentos de Stroilov também sugerem que o governo do atual comissário espanhol da União Eruopéia para assuntos monetários, Joaquín Almunia, apoiou entusiasticamente o projeto soviético de unificar a Europa e a Alemanha em um "lar comum europeu" socialista e se opôs fortemente à independência dos estados bálticos e da Ucrânia.

Talvez você não se surpreenda ao ler que proeminentes políticos europeus tinham estas opiniões. Mas por que isto? É impossível imaginar que figuras que tivessem tido ligações tão estreitas com o Partido Nazista - ou que seja com a Ku Klux Klan ou com o regime do apartheid Sul-Afrinca — estariam nas posições mais elevadas na Europa de hoje. As regras são diferentes, aparentemente, para os companheiros de viagem comuninstas. "Nós temos hoje um partido socialista não-eleito administrando a Europa", Stroilov me disse. "Aposto que nem a KGB consegue acreditar."

E o que dizer da descrição de Zagladin de suas transações com nosso próprio vice-presidente atual em 1979?

De forma não-oficial, (o senador Joseph) Biden e o (senador Richard) Lugar diseram que, no final das contas, eles não estavam muito preocupados em resolver os problemas deste ou daquele cidadão tanto quanto estavam em mostrar ao público americano que eles de fato se importam com os "direitos humanos."... Em outras palavras, os interlocutores admitiram diretamente que o que está acontecendo é uma espécie de espetáculo, que eles não se importam em absoluto com o destino da maioria dos assim chamados dissidentes.

Espantosamente, o mundo mostrou muito pouco interesse pelos arquivos soviéticos, que ninguém leu. Este parágrafo sobre Biden é um bom exemplo. Stroilov e Bukovsky foram co-autores de um artigo sobre ele na revista online FrontPage de 10 de outubro de 2008 passou despercebido. Os americanos consideraram o episódio tão desinteressante nem os oponentes políticos de Biden tenteram transformá-lo em capital político. Imagine, se puder, o que deve ser ter passado os melhores anos de sua vida em um hospital psiquiátrico soviético só para depois saber que Joe Biden agora é vice-presidente dos Estados Unidos e que todo mundo está se lixando.

O livro de Bukovsky sobre a história que estes documentos contam, Jugement à Moscou, foi publicado em francês, russo e umas poucas outras línguas eslavas, mas não em inglês. A Random House comprou o manuscrito e nas palavras de Bukovsky, tentou "me obrigar a reescrever o livro inteiro a partir da perspectiva política esquerdista liberal." Bukovsky respondeu que "devido a certas peculiaridades de minha biografia, eu sou alérgico à censura política." O contrato foi cancelado, o livro nunca foi publicado em inglês e nenhum outro editor mostrou interesse nele. Ninguém tampouco quis publicar UERSS, um panfleto de Stroilov e Bukovsky sobre as raízes soviéticas da integração européia. Em 2004, um minúsculo editor britânico publicou uma versão abreviada do panfleto e ele, também, passou despercebido.

Stroilov tem uma longa lista de queixas sobre jornalistas que inicialmente mostraram interesse nos documentos, apenas para dizer a ele depois que os editores tinham declarado que a história era insignificante. Às vésperas da visita de Gorbachev à Alemanha para a celebração dos 20 anos da queda do Muro de Berlim, diz Stroilov, ele ofereceu à imprensa alemã os documentos que mostravam Gorbachev de pouco lisonjeira. Ninguém quis. Na França, notícias sobre os documentos mostrando Miterrand e Gorbachev para transformar a Alemanha em um estado cliente socialista motivaram alguns rumores de curiosidade e nada mais. A vasta coleção de Bukovsky sobre o patrocínio soviético do terrorismo, palestino ou não, em sua ampla maioria ainda não foi publicado. Stroilov diz que ele e Bukovsky procuraram Jonathan Brent, da Yale University Press, que possui um importante projeto ediorial sobre a história da Guerra Fria. Ele afirma que a princípio Brent ficou entusiasmado e pediu a ele que escrevesse um livro, baseado nos documentos, sobre a primeira Guerra do Golfo. Stroilov diz que escreveu os seis primeiros capítulos, despachou eles e nunca mais teve notícias de Brent, a pesar de lhe mandar e-mail em cima de e-mail. "Eu só posso especular a respeito do que tanto o apavorou naquele livro," Stroilov me diz.

Eu também perguntei a Brent e não recebi resposta. Isto não quer dizer nada as pessoas são ocupadas. Eu estou menos inclinado a acreditar em tentativas complexas de suprimir a verdade do que a crer em indiferença e em preocupações com outras coisas. Stroilov vê nestes eventos "um tipo de tabu, o vago princípio de que no sistema é melhor deixar deitados os cachorros adormecidos, não jogar pedras em um telhado de vidro e não falar de corda em casa de enforcado." Eu suspeito que seja algo ainda mais perturbador: ninguém liga mesmo.

“Eu sei que vai chegar o momento," diz Stroilov, "em que o mundo vai ter que olhar estes documentos com muito cuidado. Simplesmente não podemos escapar disto. Não podemos seguir adiante enquanto não encararmos o que aconteceu no século 20. Mesmo agora, não importa o quanto tentemos ignorar a história, todas estas questões volta e meia retornam.."

As questões volta e meia retornam, é verdade, mas poucos se lembram que eles já foram questionados e poucos se lembram como era a resposta. Ninguém fala muito sobre as vítimas do comunismo. Ninguém constrói memoriais às multidões assassinadas pelo Estado Soviético. (Em seu livro amplamente ignorado, A Century of Violence in Soviet Russia [Um século de violência na Rússia soviética], Alexander Yakovlev, o arquiteto da perestroika sob Gorbachev, coloca o número entre 30 e 35 milhões.)

De fato, muitos subscrevem os princípios essenciais da ideologia comunista. Políticos, acadêmicos, estudantes, até o taxista ocasional que é auto-didata ainda se opõe à propriedade privada. Muitos continuam encantados com as idéias de planejamento econômico central. Stálin, de acordo com as pesquisas de opinião, é uma das figuras históricas mais populares na Rússia. Um número nada desprezível de jovens em Istambul, onde eu vivo, se descreve orgulhosamente como comunista eu conheci pessoas assim no mundo inteiro, de Seattle a Calcutá.

Nós insistimos acertadamente na total desnazificação nós denunciamos violentamente os que agora tentam reviver a ideologia dos nazistas. Mas o mundo demonstra um perigoso fracasso em reconhecer a história monstruosa do comunismo. Estes documentos deveriam ser traduzidos. Eles deveriam ser recolhidos a uma biblioteca e cuidadosamente avaliados por estudiosos. Sobretudo, eles deveriam ser bem conhecidos por um público que parece ter se esquecido do que foi a União Soviética. Se eles contêm o que Stroilov e Bukovsky dizem - e todas as evidências sugerem que sim -, esta é a obrigação de qualquer um que se importe um mínimo com a hisória, a política externa e os muitos e muitos milhões de mortos.

Claire Berlinski, uma das editoras do City Journal, é uma jornalista americana que vive em Istambul. Ela é autora de : There Is No Alternative: Why Margaret Thatcher Matters [Não há escolha: porque Margareth Thatcher é importante]. Artigo Publicado no City Journal, Original: A Hidden History of Evil - Why doesn’t anyone care about the unread Soviet archives?. Tradução e links*: Dextra

http://www.heitordepaola.com/imprimir_materia.asp?id_materia=2313





O desertor da SVR/KGB Sergei Tretyakov disse ao jornalista Pete Earley,

"Quero alertar os americanos. Como povo, você é muito ingênuo em relação à Rússia e suas intenções. Você acredita que porque a União Soviética não existe mais, a Rússia agora é sua amiga. Não é, e posso mostrar como o SVR está tentando destruir os EUA até hoje e ainda mais do que a KGB fez durante a Guerra Fria."[x]  https://jrnyquist.blog/2022/07/19/the-inversion-of-jordon-peterson/

CANAL HISTÓRIA HERÓICA - ARQUIVOS DA KGB
https://www.youtube.com/channel/UCiZoxp05rBA9wdBT2Gelzkg

Da Rússia, com terror - Jamie Glazov
http://www.midiasemmascara.org/artigos/movimento-revolucionario/14427-da-russia-com-terror.html

A ILUSÃO SUSTENTA O COMUNISMO
http://conspiratio3.blogspot.com.br/2016/01/a-ilusao-sustenta-o-comunismo.html

POR QUE A RÚSSIA TEM SIDO A FONTE DO TOTALITARISMO?  

"Rússia é governada por um sistema que não possui freios e contrapesos efetivos e o poder está concentrado em algumas poucas mãos. E onde quer que tal concentração de poder exista, é onde se encontrará uma grande quantidade de crimes e malevolência generalizada. É, portanto, onde se encontram os grandes criminosos, isto é, os psicopatas.

Jacob Burckhardt uma vez escreveu que o “poder é mau” e Lord Acton alertou que o “poder corrompe”. Aqueles que redigiram a Constituição dos Estados Unidos acreditavam que apenas um sistema de freios e contrapesos pode prevenir contra o pior. Da experiência histórica sabemos que esse é o único sistema que produz bons resultados. Eles não são resultados perfeitos, mas são os melhores imaginados pelo homem e são os melhores possíveis — na prática — para salvaguardar a vida e a propriedade. Quando não se tem um sistema funcional de freios e contrapesos a vida e a propriedade não estão a salvo. Eis o caráter do governo russo — e será dos Estados Unidos se nosso sistema de freios e contrapesos continuar a ser sabotado.

Em 1991, quando a União Soviética entrou em colapso, não se estabeleceu um sistema apropriado de freios e contrapesos e o poder continuou concentrado em algumas poucas mãos. O governo não teve de fato que prestar contas a qualquer pessoa. A despeito da realidade subjacente, tudo foi arranjado para que se parecesse que se estava indo em direção a uma democracia capitalista com freios e contrapesos balanceados, mas nada do gênero chegou a acontecer. O objetivo primário de empreender essas mudanças foi enganar o Ocidente. Aliás, essa não é a minha conclusão; é a de Yevgenia Albats, a famosa jornalista russa. Do primeiro ao último integrante, a velha gangue ainda está lá e tudo foi organizado para dar vantagem aos instrumentos escolhidos do Comitê Central (e.g., “ex” integrantes do aparato do Partido Comunista e oficiais da KGB). " JEFFREY NYQUIST 

https://conspiratio3.blogspot.com/2015/01/por-que-russia-tem-sido-fonte-do.html

 


 

quarta-feira, 3 de abril de 2019

LEANDRO RUSCHEL - As reações ao documentário 1964 do Brasil Paralelo

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1964 - O BRASIL ENTRE ARMAS E LIVROS
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https://youtu.be/yTenWQHRPIg

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Olavo de Carvalho Gosto muito dos vídeos da Débora Barbosa, mas o equivalentismo forçado entre CIA e KGB é uma concessão absurda ao espírito da mídia.
A KGB não é um "serviço de espionagem". É, internamente, uma polícia política totalitária e um órgão de controle social, enquanto a CIA não tem autorização nem para atuar dentro do territ;ório americano; e, no Exterior, a KGB é um órgão de guerra cultural em massa desde a década de 20, ao passo que a PRIMEIRA iniciativa da CIA na área não veio antes de 1956, o famoso "Congresso pela Liberdade da Cultura" em Berlim.
13 h
Para piorar, não há termos de comparação possível entre a penetração decisiva da KGB no GOVERNO americano (v. Diana West, "American Betrayal) e a da CIA em meios estudantis e intelectuais de Moscou desprovidos de todo poder político e reduzidos à marginalidade.
Olavo de Carvalho "O Brasil é um exemplo claríssimo da desproporção entre CIA e KGB. Enquanto há meio século a mídia inteira grita contra a intervenção da CIA no golpe de 1964 sem poder apontar UM NOME SEQUER de agente americano lotado no Brasil na época, mais de TRÊS MIL agentes soviéticos infiltrados em altos escalões do governo brasileiro já foram identificados, e até hoje ninguém reclama de "intervenção da KGB"."

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O QUE É GUERRA ASSIMÉTRICA - OLAVO DE CARVALHO 
https://conspiratio3.blogspot.com/2019/02/guerra-assimetrica-olavo-de-carvalho_25.html

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O movimento revolucionário, assim como os psicopatas, tenta ocultar e destruir as informações reais sobre eles. E quando estão no poder instalam seu monopólio da informação, para que as pessoas aceitem, sem questionar, a versão invertida dos fatos e até a própria censura camuflada. Isso causa certo mal-estar e muitos problemas mentais, mas não ocorre a ninguém investigar a manipulação a que estão submissas.

A escassez de verdades e o excesso de mentiras e idéias sem pé nem cabeça compõem um universo insano cujas referências e aval são as autoridades criminosas que o governam. Acho que as pessoas pressentem o tamanho do monstro e baixam a cabeça, sem assumir que essa cumplicidade vai gerar o inferno na Terra. 




Olavo de Carvalho "A uniformidade de opiniões, ódios e preconceitos, as estratégias coordenadas com a velocidade do raio, a completa ausência de pluralismo e debate já deveriam bastar para qualquer pessoa inteligente perceber que a mídia brasileira é um órgão de controle social ditatorial, não de promoção da democracia. Mas, como essa realidade é chocante e assustadora, muitos preferem fingir que não a enxergam." 

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REPRESSÃO À LIBERDADE DE EXPRESSÃO 
"Por outro lado, a discriminação ideológica nos sistemas comunistas tem a finalidade de proibir outras idéias e de impor as suas. São duas surpreendentes formas de tirania inacreditável, total. O pensamento é a mais criadora das forças: descobre o que é novo. O homem não pode viver nem produzir se não pensar e meditar. Mesmo que possam negá-lo, os comunistas são forçados a aceitar, na prática, esta verdade. Por isso, procuram tornar impossível o predomínio de outro pensamento que não seja o deles.  O homem pode renunciar a muitas coisas, mas tem necessidade de pensar e comunicar seus pensamentos. É um sofrimento profundo ser compelido a silenciar quando se tem necessidade de expressão. OBRIGAR O HOMEM A NÃO PENSAR, A EXPRESSAR PENSAMENTOS QUE NÃO SÃO OS SEUS, É A PIOR FORMA DE TIRANIA.  A limitação da liberdade de pensamento não constitui apenas um ataque a direitos sociais e políticos específicos, mas também ao próprio ser humano como tal."   

SEM CENSURA, A MENTIRA NÃO COLA - "O cidadão, no sistema comunista, vive oprimido (...) Em última análise, todos os jornais são oficiais, bem como o rádio e outros meios de comunicação. Os resultados de tudo isso não são grandes, e em nenhum caso correspondem aos meios e medidas empregados. Porém, resultados consideráveis são conseguidos tornando IMPOSSÍVEL A MANIFESTAÇÃO DE OPINIÕES que não sejam as oficiais e combatendo as idéias contrárias. " (Milovan Djilas – “A Nova Classe”)

Olavo de Carvalho - "A experiência de todos os países comunistas prova, sem a menor margem de dúvida, que a esquerda revolucionária sempre esteve consciente da importância crucial da censura e dos limites à liberdade de expressão para a conquista e o exercício do poder. Essa é a única razão pela qual os esquerdistas tanto combatem essas coisas numa democracia sobre a qual ainda não tenham o poder total: para assegurar que elas estarão sempre sob o seu controle monopolístico, sem que o adversário tenha a menor chance de usá-las -- ou se usar qualquer recurso que remotamente se pareça com elas -- para a manutenção da ordem legal vigente.
https://www.facebook.com/olavo.decarvalho/posts/10155627390667192

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A DIREITA PRECISA DA VERDADE, A ESQUERDA PRECISA DA CENSURA
https://conspiratio3.blogspot.com/2019/04/a-direita-precisa-da-verdade-esquerda.html


quinta-feira, 27 de abril de 2017

EXCLUSIVO: O Brasil nos arquivos do bloco soviético - MAURO ABRANCHES - STB



CONHEÇA PROJETO STB NO BRASIL - ARQUIVOS DO BLOCO SOVIÉTICO
https://youtu.be/AJkZ8AvIfCc

StB no Brasil -
»»» Conheça o projeto StB no Brasil em

http://stbnobrasil.com
Apoie no Apoia.se em
https://apoia.se/stbnobrasil
» Youtube:
http://bit.ly/StBTube
» Facebook:
http://bit.ly/StBnoBrFace
» Twitter:
http://bit.ly/StBnoBrTwit

VÍDEOS
https://www.facebook.com/pg/brasilstb/videos/
https://www.youtube.com/channel/UCFPyOmgfyUapNv_iqnP-eMA/vídeos

AS CONEXÕES DA KGB - IV
https://youtu.be/3Qmc_AbcruE

DESINFORMAÇÃO
https://youtu.be/KPFesP1FnzM

Brasileiros da KGB
https://youtu.be/et3HQveuE0Y

O Brasil nos arquivos do bloco soviético https://youtu.be/VMzD3Bc4B6I

DESINFORMAÇÃO - ION MIHAI PACEPA http://conspiratio3.blogspot.com.br/2016/01/desinformacao-livro-de-ion-mihai-pacepaq.html

KGB
http://conspiratio3.blogspot.com.br/search/label/KGB

"Ladislav Bittman, ex-espião tcheco desertor que atuou em conjunto com a KGB na América Latina na década de 1960, afirma que a inteligência da União Soviética empregou pessoal e recursos da StB para operações diversas em países por toda a região.[4] [11] Argentina, Chile, México, Uruguai, etc. foram alvo de ações que incluíam, entre outros objetivos, a disseminação de desinformação visando consolidar a influência político-ideológica soviética.[4] Segundo ele, a KGB em conjunto com a StB, fez uso de manipulação da mídia para convencer a opinião pública, brasileira e internacional, de que os Estados Unidos foram os únicos responsáveis pelo Golpe de Estado no Brasil em 1964.[4] A abertura do arquivo da StB confirma as alegações de Bittman." WIKIPEDIA


domingo, 17 de janeiro de 2016

A ILUSÃO SUSTENTA O COMUNISMO - SVETLANA ALEXIEVICH

NOTAS DE UMA CÚMPLICE

(...)
O meu pai recordava que pessoalmente passou a acreditar no comunismo depois do vôo de Gagárin. Somos os primeiros! Podemos fazer tudo! Era assim que ele e a minha mãe nos educavam. Eu fui outubrista³, usava o emblema com o menino de cabelos frisados, fui pioneira, komsomolka. A desilusão veio mais tarde.

Depois da perestroika esperávamos que abrissem os arquivos. Abriram-os. Ficamos sabendo a história que escondiam de nós.

"Devemos atrair para nós noventa ou cem milhões que povoam a Rússia Soviética. Com os restantes não devemos falar — é preciso , exterminá-los" (Zinóviev, 1918).

"Enforcar (sem falta, enforcar, para que o povo veja) não menos de mil kulaks presos, que enriquecem, e tirar-lhe todos os cereais, designar reféns... De tal modo que a cem quilômetros em redor o povo veja e trema" (Lênin, 1918).

"Moscou está literalmente a morrer de fome" (professor Kuznetsov para Trotski). "Isso não é fome. Quando Tito ocupou Jerusalém, as mães judias comiam os seus filhos. Quando eu forçar as vossas mães a comerem os seus filhos, então pode vir ter comigo e dizer: 'Temos fome'" (Trotski, 1919).

As pessoas liam os jornais e as revistas e calavam-se. Sobre elas caiu um horror insuportável! Como viver com isto? Muitos receberam a verdade como uma inimiga. E a liberdade também. "Não conhecemos o nosso país. Não sabemos em que pensa a maioria das pessoas, vemo-las, encontramo-las todos os dias, mas não sabemos em que pensam, nem o que querem. Mas temos a ousadia de lhes ensinar. Depressa saberemos tudo, e ficaremos horrorizados", dizia um conhecido meu, com quem muitas vezes me sentava a conversar na minha cozinha. Eu discutia com ele. Isto acontecia em 1991... Tempo feliz! Acreditávamos que no dia seguinte, literalmente amanhã, começaria a liberdade. Começaria do nada, dos nossos desejos.

Dos Cadernos de Apontamentos de Chalámov: "Participei de uma grande batalha perdida por uma verdadeira atualização da vida". Isto foi escrito por um homem que passou 17 anos de detenção nos campos stalinistas.

A nostalgia do ideal manteve-se... Eu dividiria as pessoas soviéticas em quatro gerações: stalinista, khruschovista, brejnevista e gorbatchovista. Pessoalmente, pertenço à última. Para nós era mais fácil aceitar o colapso da idéia comunista, porque não vivemos no tempo em que a idéia era jovem, forte, sem a perdida magia do romantismo fatal e das esperanças utópicas. Crescemos no tempo dos velhos do Kremlin. Nos magros tempos vegetarianos. O grande sangue do comunismo já estava esquecido. O entusiasmo continuava os seus desmandos, mas conservava-se o conhecimento de que não era possível aplicar a utopia na vida.

Isto aconteceu durante a Primeira Guerra da Chechênia... Conheci em Moscou, numa estação de caminho de ferro, uma mulher que era das proximidades de Tambov e estava de partida para a Chechênia, com o objetivo de tirar o filho da guerra: "Não quero que ele morra. Não quero que ele mate." O Estado já não dominava a alma dela. Era uma pessoa livre. Eram poucas as pessoas assim. A maioria eram aqueles a quem a liberdade irritava: "Comprei quatro jornais e cada um deles tem a sua verdade. Onde está então a verdade? Dantes líamos de manhã o jornal Pravda e sabíamos tudo. Compreendíamos tudo." As idéias saíam lentamente de sob a narcose. Se eu iniciava uma conversa acerca do arrependimento, ouvia em resposta:

"De que devo eu arrepender-me?" Cada qual se considerava vítima, mas não participante. Um dizia: "Eu também estive preso." O segundo dizia: "Eu combati." E um terceiro: "Levantei a minha cidade das ruínas, acartava tijolos dia e noite". Isto era completamente inesperado: todos bêbados de liberdade, mas não preparados para a liberdade. E onde estava ela, a liberdade? Só na cozinha, onde por hábito continuavam a criticar o Poder. Criticavam Yeltsin e Gorbatchov. Yeltsin porque traíra a Rússia. E Gorbatchov? Gorbatchov porque traíra tudo. Todo o Século 20. E agora, o nosso país será igual aos outros. Será como todos. Pensavam que desta vez se conseguiria.

A Rússia mudara e odiava-se a si mesma por ter mudado. "O Mongol imóvel", escreveu Marx acerca da Rússia.

Civilização soviética... Apresso-me a registrar os seus vestígios. As caras conhecidas. Interrogo não acerca do socialismo, mas acerca do amor, do ciúme, da infância, da velhice. Sobre a música, as danças, os penteados. Sobre os mil pormenores da vida que desaparecia. Este é o único meio de dirigir a catástrofe para o quadro do habitual e tentar contar alguma coisa. Adivinhar alguma coisa. Não paro de me espantar com a maneira como a vida humana comum é interessante. Com a interminável quantidade das verdades humanas.

A história interessa-se apenas pelos fatos, e as emoções ficam fora de bordo. Não é costume admití-las na história. Mas eu olho para o mundo com os olhos de uma humanista e não de uma historiadora. Fico surpreendida com a pessoa...

O meu pai já não é deste mundo. E eu não posso terminar uma das nossas conversas... Dizia que morrer na guerra era mais fácil para ele do que para os rapazes que agora morrem na Chechênia. Nos anos 1940, iam de um inferno para outro inferno. Antes da guerra, o meu pai estudou em Minsk, no Instituto de Jornalismo. Lembrava-se de que quando voltavam das férias, muitas vezes já não encontravam um único professor conhecido, estavam todos presos. Eles não compreendiam o que se passava, mas era horrível. Horrível, como na guerra.

Tive poucas conversas francas com o meu pai. Ele tinha pena de mim. E eu, tinha pena dele? Tenho dificuldade em responder a esta pergunta... Éramos implacáveis com os nossos pais. Parecia-nos que a liberdade era uma coisa muito simples. Passou algum tempo, e nós próprios nos curvamos sob o peso dela, porque ninguém nos ensinou a liberdade. Ensinaram-nos apenas como morrer pela liberdade.

Ei-la, a liberdade! É como a esperávamos? Estávamos prontos para morrer pelos nossos ideais, para combater na batalha. Mas começou uma vida . Sem história. Ruíram todos os valores, menos o valor da vida. Da vida em geral. Novos sonhos: construir uma casa, comprar um bom carro, plantar uma groselheira... A liberdade revelou-se a reabilitação da pequena burguesia, habitualmente maltratada na vida russa. Liberdade de Sua Majestade o Consumo. Majestade das trevas. Trevas dos desejos, dos instintos — da vida humana oculta, da qual fazíamos uma idéia aproximada. A toda a história sobrevivemos, mas não vivemos.

E agora a experiência militar já não era necessária, era preciso esquecê-la. Milhares de novas emoções, estados, reações De súbito tudo em redor como que se tornou diferente: as tabuletas, as coisas, o dinheiro, a bandeira E até o próprio homem. Tornou-se mais colorido, solto, explodiram o monólito, e a vida espalhou-se em ilhas, átomos, células. Como em Dalh: liberdade-vontade, liberdadezinha ampla vastidão. O grande mal tornou-se uma lenda distante, um romance de suspense político. Já ninguém falava de idéias, falavam de créditos, de juros, de letras, não ganhavam dinheiro a trabalhar, mas "faziam-no" em "jogadas".

Seria por muito tempo? "A mentira do dinheiro na alma russa impoluta", escreveu Marina Tsvetáeva. Mas parece que os heróis de Ostrovski e de Saltikov-Schedrin ganharam vida e se passeiam pelas nossas ruas.

A todas as pessoas com quem me encontrei, perguntava: "O que é a liberdade?" Pais e filhos respondiam de modos diferentes. Aqueles que nasceram na URSS e os que já não nasceram na URSS têm experiências distintas. São pessoas de planetas diferentes.

Os pais: a liberdade é a ausência de medo; três dias em agosto, quando vencemos o golpe; uma pessoa que escolhe numa loja entre cem variedades de salame é mais livre do que a pessoa que escolhe entre dez variedades; não ser espancado, mas nunca chegaremos às gerações não espancadas; o homem russo não compreende a liberdade, precisa do cossaco e do látego.

Os filhos: a liberdade é o amor; a liberdade interior, um valor absoluto; quando não temos medo dos nossos desejos; ter muito dinheiro, e nesse caso teremos tudo; quando se pode viver de tal maneira que não se pensa na liberdade. A liberdade é o normal.

Procuro uma linguagem. O homem tem muitas linguagens: a linguagem que usa com os filhos, e mais uma, a do amor Há ainda a linguagem a que recorremos quando falamos conosco mesmos, quando travamos diálogos interiores. Na rua, no trabalho, nas viagens — por todo o lado se ouve qualquer coisa diferente, mudam não apenas as palavras, mas qualquer coisa mais. Uma pessoa até de manhã e à tarde fala de modos diferentes. E aquilo que acontece durante a noite entre duas pessoas desaparece por completo da história. Tratamos apenas da história do homem diurno. O suicídio é um tema noturno, a pessoa encontra-se no limite da existência e da não existência. Do sono.

Quero entender isto com a precisão da pessoa diurna.
Disseram-me: "Não tem medo de que isso lhe agrade?"

Seguimos pela estrada de Smolensk. Paramos numa aldeia ao lado de uma loja. Uns conhecidos (eu própria cresci nesta aldeia), uns rostos bonitos, bondosos, e em redor uma vida humilhante, pobre. Conversamos acerca da vida.

"Pergunta-me sobre a liberdade? Entre na nossa loja: vodca, há toda a que se queira: Standart, Gorbatchov Putinka, salame à farta, e queijo, e peixe. Até há bananas. De que outra liberdade precisa? Esta para nós é suficiente." "E deram-lhes terra?" "Quem é que vai mourejar nela? Se a queres, toma-a. Aqui só o Vaska Krutoi aceitou. O filho mais novo tem oito anos e anda atrás do arado ao lado do pai. Se fores trabalhar para ele, não penses em juntar algum dinheiro, ele nem dorme. É um fascista!"

Na "Lenda do Grande Inquisidor" de Dostoiévski há uma discussão sobre a liberdade. Diz-se que o caminho da liberdade é difícil, sofrido, trágico "Para que conhecer esse diabo desse bem e desse mal, se isso custa tanto?" O homem tem sempre que escolher: a liberdade ou o bem-estar e a organização da sua vida, a liberdade com sofrimento ou a felicidade sem liberdade. E a maioria das pessoas segue por esse segundo caminho.

O Grande Inquisidor diz a Cristo, que voltou à Terra:
"Porque vieste cá incomodar-nos? Porque tu vieste incomodar-nos e sabes isso muito bem".


"Ao respeitá-lo [ao homem], tu procedeste como se tivesses deixado de sentir compaixão por ele, porque exigiste demasiado dele Ao respeitá-lo menos, exigias-lhe menos, e isso estaria mais perto do amor, pois o fardo dele seria mais leve. Ele é fraco e vil Que culpa tem a alma fraca, se é incapaz de juntar em si tão terríveis dons?"

"Não há preocupação mais constante e torturante para o homem do que, ao ficar livre, procurar depressa alguém diante de quem se inclinar a quem transmitir depressa o dom da liberdade com que esse ser infeliz nasce".
Nos anos 1990 sim, éramos felizes, e essa nossa ingenuidade já nunca mais volta. Parecia-nos que a escolha estava feita, que o comunismo tinha perdido sem apelo. Mas tudo estava apenas a começar.

Passaram-se vinte anos... "Não nos assustem com o socialismo", dizem os filhos aos pais.

De uma conversa com um professor universitário meu conhecido:
"No final dos anos noventa os estudantes riam-se quando eu recordava a União Soviética; estavam confiantes de que à sua frente se abria um novo futuro. Agora o quadro é diferente Os estudantes de hoje já descobriram, já sentiram o que é o capitalismo — a desigualdade, a pobreza, a riqueza descarada, têm diante dos olhos a vida dos pais para quem nada restou do país saqueado. Sonham com a sua revolução. Usam camisolas vermelhas com retratos de Lênin e de 'Che' Guevara."


Cresceu na sociedade o interesse pela União Soviética. Pelo culto de Stálin. Metade dos jovens dos 19 aos 30 anos consideram Stálin "o maior dirigente político". Num país em que Stálin liquidou tantas pessoas como Hitler, um novo culto de Stálin?! Tudo o que é soviético está outra vez na moda. Por exemplo, os cafés "soviéticos" — com nomes soviéticos e pratos soviéticos. Surgiram os bombons "soviéticos" e o salame "soviético" — com o cheiro e o sabor nossos conhecidos desde a infância. E, é claro, a vodca "soviética". Na televisão há dezenas de transmissões e na Internet dezenas de sites nostálgicos "soviéticos".

Podem fazer-se visitas turísticas aos campos stalinistas — em Solovka, em Magadan. O anúncio promete que para mais completa sensação fornecem um fato do campo e uma picareta. Mostram os barracões restaurados. E no final organizam uma pescaria.

Renascem idéias antiquadas: sobre o Grande Império, sobre a "mão de ferro", "sobre a via russa especial" Reapareceu o hino soviético, há o Komsomol, mas chama-se simplesmente "Nachi" (os "Nossos"), há o partido do Poder, que copia o Partido Comunista. O presidente tem um poder como o do secretário-geral. Absoluto. Em vez do marxismo-leninismo, a religião ortodoxa.

Antes da revolução de 1917, Aleksandr Grin escreveu: "E o futuro parece ter deixado de estar no seu lugar." Passaram cem anos, e de novo o futuro não está no seu lugar. Chegou um tempo em segunda mão. A barricada é um lugar perigoso para um artista. Uma armadilha. Ali estraga-se a vista, obscurece a íris, o mundo perde a cor. Na barricada, o mundo é preto e branco. Dali já não se distingue o homem, vê-se apenas um ponto negro — um alvo. Passei toda a vida nas barricadas e queria sair delas. Aprender a alegrar-me com a vida. Recuperar a visão normal. Mas dezenas de milhares de pessoas saem de novo para as ruas. Dão-se as mãos, trazem fitas brancas nos blusões, símbolo do renascimento. Há cor. E eu estou com elas.
Encontrei nas ruas jovens com a foice e o martelo e o retrato de Lênin nas camisolas. Saberão eles o que é o comunismo?

1 Designação depreciativa do regime soviético e de tudo o que com ele se relaciona. (N. do T.)
2 Ou simplesmente Gulag. Acrónimo da designação russa: Glavnoe Upravlénie Ispravi- telno-trudovikh Laguerei (Direção Central dos Campos de Trabalho Correcional). 3 Outubrista: primeira forma de organização das crianças, que a seguir entravam para os pioneiros e mais tarde para o Komsomol, a juventude comunista.


por Swetlana Alexievich. Artigo publicado em
(Publicado originalmente por Carlos I.S. Azambuja em http://www.alertatotal.net)
http://www.puggina.org/artigo/outrosAutores/notas-de-uma-cumplice/6650

*

MANIFESTO DA OPOSIÇÃO CUBANA
A íntegra de uma entrevista exclusiva do então guerrilheiro Fidel Castro, publicada pela revista Coronet de fevereiro de 1958.
http://www.alertatotal.net/2016/01/manifesto-da-oposicao-cubana.html

*
ÀNGELA MERKEL TRABALHA PARA OS RUSSOS
http://www.midiasemmascara.org/mediawatch/noticiasfaltantes/comunismo/16299-angela-merkel-trabalha-para-os-russos.html

Eles esvaziam as pessoas de propósitos, depois lhes oferecem um propósito falso, mas que serve ao objetivo do PODER. É só poder. 

Liberdade permite a descoberta da verdade, do conhecimento, dos valores e dos fundamentos para a ação. Podemos testemunhar hoje, na Internet LIVRE, que a massiva busca da verdade faz o real fact checking e devolve à sociedade o senso de realidade. 

*

"O capital intelectual é o que define o destino das nações"
Olavo de Carvalho

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

ARQUIVOS SOVIÉTICOS - UMA HISTÓRIA OCULTA DO MAL


Uma História oculta do Mal 

Uma História oculta do Mal

POR QUE NINGUÉM SE INTERESSA PELOS ARQUIVOS SOVIÉTICOS AINDA NÃO LIDOS?

Claire Berlinski

Embora Mikhail Gorbatchev seja idolatrado no Ocidente, os arquivos ainda não traduzidos sugerem uma figura muito mais sombria

Na consciência coletiva do mundo, a palavra "nazista" é um sinônimo do mal. É amplamente reconhecido que a ideologia dos nazistas - nacionalismo, anti-semitismo, o estado autárquico, o conceito do Führer - levou diretamente aos fornos de Auschwitz. Não se reconheceu tão bem, nem de longe, que o comunismo levou, de forma igualmente inexorável, em todas as partes do globo onde foi aplicado, a fome, tortura e campos de trabalho escravo. E nem é amplamente reconhecido que o comunismo foi responsável pela morte de uns 150 milhões de seres humanos durante o século 20. O mundo permanece inexplicavelmente indiferente e desinteressado a respeito da mais mortífera ideologia na história da humanidade.

Como prova desta indiferença, considere os arquivos soviéticos, que ninguém leu. Pavel Stroilov, um russo exilado em Londres, tem em seu computador 50 000 documentos super-secretos do Kremlin, ainda não traduzidos nem publicados, a maioria datando do final da Guerra Fria. Ele os roubou em 2003 e fugiu da Rússia. Muitos ainda se lembram de um tempo em que eles teriam valido milhões para a CIA eles certamente contam uma história do comunismo e seu colapso que o mundo precisa conhecer. E no entanto, ele não consegue encontrar ninguém que os recolha a uma biblioteca de reputação, publique-os ou financie sua tradução. Na verdade, ele não consegue encontrar ninguém que se tenha lá muito interesse neles.

E há o dissidente soviético Vladimir Bukovsky, que já passou 12 anos nas prisões, campos de trabalho e psikhushkas - hospitais psiquiátricos políticos - da URSS, após ser condenado por reproduzir literatura anti-soviética. Também ele posui uma enorme coleção de documentos roubados e contrabandeados dos arquivos do Comitê Central do Partido Comunista, os quais, como diz ele, "contêm as origens e os fins de todas as tragédias de nosso século sangrento." Estes documentos estão disponíveis online em bukovsky-archives.net*, mas a maioria não está traduzida. Eles estão desorganizados não há sumários não há um mecanismo de busca ou um índice. "Eu os ofereço de graça para os mais influentes jornais e periódicos do mundo, mas ninguém quer publicá-los," diz Bukovsky. "Os editores dão de ombros com indiferença: E daí? Quem liga para isso?”

Os originais da maioria dos documentos de Stroilov continuam nos arquivos do Kremlin, onde, como a maior parte dos documentos super-secretos do período pós-Stálin da União Soviética, eles continuam vetados ao público. Eles incluem, diz Stroilov, transcrições de quase todas as conversas entre Gorbachev e seus homólogos estrangeiros - centenas deles: um registro diplomático quase completo de uma era e que não está disponível em nenhum outro lugar. Há observações do Politburo anotadas por Georgy Shakhazarov, um assessor de Gorbachev, e pelo membro do Politburo Vadim Medvedev. Há o diário de Anatoly Chernyaev — o principal assessor de Gorbachev e vice-líder do órgão conhecido antigamente como o Comitern — o qual vai de 1972 até a queda do regime. Há relatórios dos anos 60 da autoria de Vadim Zagladin, vice-líder do Departamento Internacional do Comitê Central até 1987 e consultor de Gorbachev até 1991. Zagladin era tanto diplomata quanto espião, encarregado de coletar informações secretas, espalhar desinformação e promover a influência soviética.

Quando Gorbachev e seus assessores foram removidos do Kremlin, eles levaram consigo cópias não-autorizadas destes documentos. Os documentos foram escaneados e arquivados nos arquivos da Fundação Gorbachev, um dos primeiros think tanks da Rússia moderna, onde um punhado de pesquisadores simpáticos e selecionados tiveram acesso limitado a eles. Então, em 1999, a fundação abriu uma pequena parte do arquivo a pesquisadores independentes, incluindo Stroilov. As partes centrais da coleção permaneceram restritas os documentos só podiam ser copiados com a autorização por escrito do autor e Gorbachev recusava-se a autorizar quaisquer cópias que fossem. Mas havia uma falha na segurança da fundação, como Stroilov explicou para mim. Quando havia algo de errado com os computadores, como frequentemente ocorria, ele conseguia ver o responsável pela área de informática digitar a senha que dava acesso à rede da fundação. Lentamente e em segredo, Stroilov copiou o arquivo e o enviou para locais seguros em várias partes do mundo..

Na primeira vez em que ouvi falar dos documentos de Stroilov, perguntei-me se não seriam falsificações. Mas em 2006, tendo avaliado os documentos com a cooperação de proeminentes dissidentes soviéticos e espiões da época da Guerra Fria, alguns juízes britânicos concluíram que podia-se acreditar em Stroilov e deram aval a seu pedido de asilo político. Desde então a própria Fundação Gorbatchev reconhece a autenticidade dos documentos.

A história de Bukovsky é semelhante. Em 1992, o governo do presidente Boris Yeltsin o convidou para testemunhar na Corte Constitucional da Rússia, em um caso envolvendo a a constitucionalidade do Partido Comunista. O Arquivo do Estado Russo concedeu a Bukovsky acesso a seus documentos, para ele preparar seu testemunho. Usando um scanner manual, ele copiou milhares de documentos e os contrabandeou para o Ocidente.

O Estado Russo não pode processar Stroilov nem Bukovsky por quebra de direitos autorais, já que o material foi produzido pelo Partido Comunista e pela União Soviética, nenhum dos quais existe mais. Entretanto, se tivesse permanecido na Rússia, Stroilov acredita que poderia ter sido assediado judicialmente por revelar segredos de estado ou por traição. O historiador militar Igor Sutyagin está agora cumprindo 15 anos de prisão em um campo de trabalhos forçados pelo crime de coletar recortes de jornal e outros materiais de fontes abertas e mandá-los para uma empresa de consultoria britânica. O perigo que Stroilov e Bukovsky enfrentaram foi real e sério eles supuseram - ao menos é o que se imagina - que o mundo daria atenção àquilo pelo qual eles tinham arriscado tanto para conseguir.

Stroilov afirma que seus documentos "contam uma história completamente diferente sobre o fim da Guerra Fria. A visão 'geralmente aceita' da história daquele período consiste quase que inteiramente em mitos. Estes documentos são capazes de destruir cada um destes mitos." Será? Eu não saberia dizer. Eu não leio russo. Dos documentos de Stroilov, eu só vi os poucos que foram traduzidos para o inglês. Certamente, eles não devem ser tomados por seu valor de face eles foram, afinal de contas, escitos por comunistas. Mas a possibilidade de que Stroilov esteja correto certamente deveria causar grande curiosidade.

Os documentos, por exemplo, apresentam uma imagem muito mais sombria de Gorbachev do que a que se criou dele. Em um documento, ele ri com o Politburo da derrubada do vôo 007 da Korean Airlines pela URSS, em 1983 - um crime não só monstruoso, mas que pôs o mundo muito perto de um Armagedon nuclear. Estes minutos de uma entrevista com no Politburo, em 4 de outubro de 1989, são igualmente perturbadores:

Lukyanov informa que o número verdadeiro de vítimas na Praça da Paz Celestial foi de 3 000 pessoas.

Gorbachev: Temos que ser realistas. Eles, com nós, precisam se defender. Três mil... E daí?

E uma transcrição de uma conversa de Gorbachev com Hans-Jochen, líder do Partido Social-Democrata da Alemanha Ocidental, mostra Gorbachev defendendo as tropas russas no massacre de manifestantes pacíficos em Tiblisi, em 9 de abril de 1989.

Os documentos de Stroilov também contêm transcrições das discussões de Gorbachev com muitos líderes do Oriente Médio. Elas sugerem interessantes ligações entre a política soviética e tendências atuais da política externa russa. Eis aqui um trecho de uma conversa que está registrada como tendo ocorrido com o presidente sírio Hafez al-Assad, em 28 de abril de 1990:

H. ASSAD. Para pôr pressão sobre Israel, Bagdá teria que se aproximar de Damasco, porque o Iraque não tem fronteiras comuns com Israel...

M. S. GORBACHEV. Eu também acho...

H. ASSAD. A postura de Israel é diferente, porque a própria religião judaica afirma: a terra de Israel se expande do Nilo ao Eufrates e o seu retorno é uma predestinação divina.

M. S. GORBACHEV. Mas isto é racismo, cobinado com Messianismo!

H. ASSAD. Este é o tipo mais perigoso de racismo.

Não é preciso ser um sonhador para se perguntar se estas discussões podem ser relevantes para nossa compreensão da atual política Russa para uma região de permanente importância estratégica.

Há outros aspectos sob os quais a história que os documentos de Stroilov e Bukovsky contam não acabou. Eles sugerem, por exemplo, que os arquitetos do projeto da integração européia, bem como muitos dos líderes de alto escalão da União Européia, estavam inquietantemente próximos da URSS. Isto levanta questões importantes sobre a natureza da Europa atual - questões que podem ser colocadas, quando os americanos consideram a Europa como um modelo de política social ou quando eles buscam a cooperação diplomática européia em assuntos centrais de segurança nacional.

De acordo com os relatos de Zagladin, por exemplo, Kenneth Coates, que de 1989 a 1998 foi um representante britânico no Parlamento Europeu, procurou Zagladin em 9 de janeiro de 1990 para discutir que constituia uma verdadeira fusão gradual do Parlamento Europeu com o Soviet Supremo. Coates, diz Zagladin, explicou que "a criação de uma infraestrutura de cooperação entre os dois parlamento(s) ajudaria a isolar os direitistas no Parlamento Europeu (e na Europa), aqueles que estão interessados na queda da URSS." Coates trabalhou como presidente do Subcomitê de Direitos Humanos do Parlamento Eropeu, de 1992 a 1994. Como é que a Europa pode ter recebido conselhos de um homem que aparentemente desejava "isolar" os interessados na queda da URSS e procurou extender a influência soviética sobre a Europa?

Ou considere um relato sobre Francisco Fernández Ordóñez, que liderou a integração da Espanha à Comunidade Européia, enquanto era ministro do exterior. Em março de 1989, de acordo com estes documentos, ele explicou a Gorbachev que "o sucesso da perestroika significa só uma coisa — o sucesso da revolução socialista em condições atuais." Dezoito meses depois, Ordóñez disse a Gorbachev: "Eu sinto um nojo intelectual quando eu tenho que ler, por exemplo, trechos de documentos do ‘G7’ em que os problemas da democracia, da liberdade da personalidade humana e a ideologia da economia de mercado são colocados no mesmo nível. Como socialista, eu não posso aceitar umaa tal equação." O mais chocante talvez seja que a imprensa da Europa Oriental relatou que os documentos de Stroilov sugerem que [o presisente socialista francês] François Mitterran fez manobras juntamente com Gorbachev para assegurar que a Alemanha se unificaria como uma entidade socialista e neutra, sob um condomínio Franco-Soviético.

Os registros de Zagladin também observam que o ex-líder do Partido Trabalhista Britânico, Neil Kinnock, contatou Gorbachev - sem autorização, enquanto era líder da oposição - através de um emissário secreto, para discutir a possibilidade de freiar o programa Trident de mísseis nucleares do Reino Unido. O registro do encontro de alguns minutos entre Gorbachev e o emissário, o deputado Stuart Holland, é o seguinte:

Na opinião [de Holland], a União Soviética deveria estar muito interessada na liquidação dos 'Tridents', porque, além de outras coisas, o Ocidente - quer dizer, os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a França - teriam uma séria vantagemsobre a União Soviética, depois que o tratado START estivesse completo. Será preciso eliminar esta vantagem... Ao mesmo tempo, Holland observou que, é claro, nós pedemos pensar seriamente sobre a realização desta idéia se o Partido Trabalhista chegar ao poder. Ele disse que Thatcher... nunca concordaria com nenhuma redução do armamento nuclear.

Kinnock foi vice-presidente da Comissão Européia de 1999 a 2004 e sua esposa, Glenys, agora é a ministra da Grã-Bretanha para a Europa. Gerald Batten, membro do Partido da Independência do Reino Unido, comentou sobre a relevância do episódio: “Se o relato passado ao Sr.. Gorbachev for verdadeiro, isto significa que Lord Kinnock procurou um dos inimigos da Grã-Bretanha a fim de buscar aprovação em relação à política de defesa de seu pertido e, se ele tivesse sido eleito, da política de defesa da Grã-Bretanha," disse Batten ao Parlamento Europeu, em 1999. "Se este relato for verdadeiro, então Lord Kinnock seria culpado de traição."

Um caso semelhante é o da Baronesa Catherine Ashton, que agora é ministra do exterior da União Européia e foi tesoureira da Campanha da Grã-Bretanha pelo Desarmamento Nuclear entre 1980 e 1982. Os documentos oferecem provas de que esta organização recebeu "fundos não-identificados" da União Soviética durante os anos 80. Os documentos de Stroilov também sugerem que o governo do atual comissário espanhol da União Eruopéia para assuntos monetários, Joaquín Almunia, apoiou entusiasticamente o projeto soviético de unificar a Europa e a Alemanha em um "lar comum europeu" socialista e se opôs fortemente à independência dos estados bálticos e da Ucrânia.

Talvez você não se surpreenda ao ler que proeminentes políticos europeus tinham estas opiniões. Mas por que isto? É impossível imaginar que figuras que tivessem tido ligações tão estreitas com o Partido Nazista - ou que seja com a Ku Klux Klan ou com o regime do apartheid Sul-Afrinca — estariam nas posições mais elevadas na Europa de hoje. As regras são diferentes, aparentemente, para os companheiros de viagem comuninstas. "Nós temos hoje um partido socialista não-eleito administrando a Europa", Stroilov me disse. "Aposto que nem a KGB consegue acreditar."

E o que dizer da descrição de Zagladin de suas transações com nosso próprio vice-presidente atual em 1979?

De forma não-oficial, (o senador Joseph) Biden e o (senador Richard) Lugar diseram que, no final das contas, eles não estavam muito preocupados em resolver os problemas deste ou daquele cidadão tanto quanto estavam em mostrar ao público americano que eles de fato se importam com os "direitos humanos."... Em outras palavras, os interlocutores admitiram diretamente que o que está acontecendo é uma espécie de espetáculo, que eles não se importam em absoluto com o destino da maioria dos assim chamados dissidentes.

Espantosamente, o mundo mostrou muito pouco interesse pelos arquivos soviéticos, que ninguém leu. Este parágrafo sobre Biden é um bom exemplo. Stroilov e Bukovsky foram co-autores de um artigo sobre ele na revista online FrontPage de 10 de outubro de 2008 passou despercebido. Os americanos consideraram o episódio tão desinteressante nem os oponentes políticos de Biden tenteram transformá-lo em capital político. Imagine, se puder, o que deve ser ter passado os melhores anos de sua vida em um hospital psiquiátrico soviético só para depois saber que Joe Biden agora é vice-presidente dos Estados Unidos e que todo mundo está se lixando.

O livro de Bukovsky sobre a história que estes documentos contam, Jugement à Moscou, foi publicado em francês, russo e umas poucas outras línguas eslavas, mas não em inglês. A Random House comprou o manuscrito e nas palavras de Bukovsky, tentou "me obrigar a reescrever o livro inteiro a partir da perspectiva política esquerdista liberal." Bukovsky respondeu que "devido a certas peculiaridades de minha biografia, eu sou alérgico à censura política." O contrato foi cancelado, o livro nunca foi publicado em inglês e nenhum outro editor mostrou interesse nele. Ninguém tampouco quis publicar UERSS, um panfleto de Stroilov e Bukovsky sobre as raízes soviéticas da integração européia. Em 2004, um minúsculo editor britânico publicou uma versão abreviada do panfleto e ele, também, passou despercebido.

Stroilov tem uma longa lista de queixas sobre jornalistas que inicialmente mostraram interesse nos documentos, apenas para dizer a ele depois que os editores tinham declarado que a história era insignificante. Às vésperas da visita de Gorbachev à Alemanha para a celebração dos 20 anos da queda do Muro de Berlim, diz Stroilov, ele ofereceu à imprensa alemã os documentos que mostravam Gorbachev de pouco lisonjeira. Ninguém quis. Na França, notícias sobre os documentos mostrando Miterrand e Gorbachev para transformar a Alemanha em um estado cliente socialista motivaram alguns rumores de curiosidade e nada mais. A vasta coleção de Bukovsky sobre o patrocínio soviético do terrorismo, palestino ou não, em sua ampla maioria ainda não foi publicado. Stroilov diz que ele e Bukovsky procuraram Jonathan Brent, da Yale University Press, que possui um importante projeto ediorial sobre a história da Guerra Fria. Ele afirma que a princípio Brent ficou entusiasmado e pediu a ele que escrevesse um livro, baseado nos documentos, sobre a primeira Guerra do Golfo. Stroilov diz que escreveu os seis primeiros capítulos, despachou eles e nunca mais teve notícias de Brent, a pesar de lhe mandar e-mail em cima de e-mail. "Eu só posso especular a respeito do que tanto o apavorou naquele livro," Stroilov me diz.

Eu também perguntei a Brent e não recebi resposta. Isto não quer dizer nada as pessoas são ocupadas. Eu estou menos inclinado a acreditar em tentativas complexas de suprimir a verdade do que a crer em indiferença e em preocupações com outras coisas. Stroilov vê nestes eventos "um tipo de tabu, o vago princípio de que no sistema é melhor deixar deitados os cachorros adormecidos, não jogar pedras em um telhado de vidro e não falar de corda em casa de enforcado." Eu suspeito que seja algo ainda mais perturbador: ninguém liga mesmo.

“Eu sei que vai chegar o momento," diz Stroilov, "em que o mundo vai ter que olhar estes documentos com muito cuidado. Simplesmente não podemos escapar disto. Não podemos seguir adiante enquanto não encararmos o que aconteceu no século 20. Mesmo agora, não importa o quanto tentemos ignorar a história, todas estas questões volta e meia retornam.."

As questões volta e meia retornam, é verdade, mas poucos se lembram que eles já foram questionados e poucos se lembram como era a resposta. Ninguém fala muito sobre as vítimas do comunismo. Ninguém constrói memoriais às multidões assassinadas pelo Estado Soviético. (Em seu livro amplamente ignorado, A Century of Violence in Soviet Russia [Um século de violência na Rússia soviética], Alexander Yakovlev, o arquiteto da perestroika sob Gorbachev, coloca o número entre 30 e 35 milhões.)

De fato, muitos subscrevem os princípios essenciais da ideologia comunista. Políticos, acadêmicos, estudantes, até o taxista ocasional que é auto-didata ainda se opõe à propriedade privada. Muitos continuam encantados com as idéias de planejamento econômico central. Stálin, de acordo com as pesquisas de opinião, é uma das figuras históricas mais populares na Rússia. Um número nada desprezível de jovens em Istambul, onde eu vivo, se descreve orgulhosamente como comunista eu conheci pessoas assim no mundo inteiro, de Seattle a Calcutá.

Nós insistimos acertadamente na total desnazificação nós denunciamos violentamente os que agora tentam reviver a ideologia dos nazistas. Mas o mundo demonstra um perigoso fracasso em reconhecer a história monstruosa do comunismo. Estes documentos deveriam ser traduzidos. Eles deveriam ser recolhidos a uma biblioteca e cuidadosamente avaliados por estudiosos. Sobretudo, eles deveriam ser bem conhecidos por um público que parece ter se esquecido do que foi a União Soviética. Se eles contêm o que Stroilov e Bukovsky dizem - e todas as evidências sugerem que sim -, esta é a obrigação de qualquer um que se importe um mínimo com a hisória, a política externa e os muitos e muitos milhões de mortos.

Claire Berlinski, uma das editoras do City Journal, é uma jornalista americana que vive em Istambul. Ela é autora de : There Is No Alternative: Why Margaret Thatcher Matters [Não há escolha: porque Margareth Thatcher é importante]. Artigo Publicado no City Journal, Original: A Hidden History of Evil - Why doesn’t anyone care about the unread Soviet archives?. Tradução e links*: Dextra

http://www.heitordepaola.com/imprimir_materia.asp?id_materia=2313

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O desertor da SVR/KGB Sergei Tretyakov disse ao jornalista Pete Earley,
"Quero alertar os americanos. Como povo, você é muito ingênuo em relação à Rússia e suas intenções. Você acredita que porque a União Soviética não existe mais, a Rússia agora é sua amiga. Não é, e posso mostrar como o SVR está tentando destruir os EUA até hoje e ainda mais do que a KGB fez durante a Guerra Fria."
[x]  https://jrnyquist.blog/2022/07/19/the-inversion-of-jordon-peterson/


CANAL HISTÓRIA HERÓICA - ARQUIVOS DA KGB
https://www.youtube.com/channel/UCiZoxp05rBA9wdBT2Gelzkg

Da Rússia, com terror - Jamie Glazov
http://www.midiasemmascara.org/artigos/movimento-revolucionario/14427-da-russia-com-terror.html

A ILUSÃO SUSTENTA O COMUNISMO
http://conspiratio3.blogspot.com.br/2016/01/a-ilusao-sustenta-o-comunismo.html