"O
revolucionário ... conhece
apenas uma ciência: a ciência da destruição." CATECISMO REVOLUCIONÁRIO
*
TOTALITARISMO E IDEOLOGIA - VACLAV HAVEL "No sistema "pós-totalitário", portanto, viver dentro da verdade tem mais
do que uma mera dimensão existencial (devolvendo a humanidade à sua
natureza inerente), ou uma dimensão noética (revelando a realidade como
ela é), ou uma dimensão moral (dando um exemplo para outros). Tem também
uma dimensão política inequívoca. Se o principal pilar do sistema é
viver uma mentira, então não é surpreendente que a ameaça fundamental ao
mesmo seja viver a verdade. É por isso que deve ser reprimido mais
severamente do que qualquer outra coisa." https://conspiratio3.blogspot.com/2023/11/tudo-e-politica.html
* * * *
"Salvarei o Brasil se ouvir em todas as casas ao menos uma jaculatória da minha Coroa das Lágrimas" https://youtu.be/Po12Ny6K2kI?t=26
*
"O medo de enxergar o tamanho do mal já é sinal de submissão ao demônio." Olavo de Carvalho
Se Homero tinha razão ao dizer que os
moinhos dos deuses moem lentamente, o cérebro nacional deve ser divino,
pois é infinita a lentidão com que processa as mais óbvias informações. O
filósofo Raymond Abellio, que nos conhecia bem, observava que nesta
parte do universo a germinação das idéias não segue o ritmo histórico,
mas o tempo geológico. Nada o ilustra melhor do que a renitente
ignorância das elites brasileiras em torno da questão do governo
mundial. Nossos líderes empresariais e políticos ainda vivem na época em
que toda menção ao assunto podia ser tranqüilamente rejeitada, com um
sorriso de desdém, como “teoria da conspiração”. No entanto, há pelo
menos dez anos a ONU já declarou oficialmente sua intenção de
consolidar-se como administração planetária: “Os problemas da humanidade
já não podem ser resolvidos pelos governos nacionais. O que é preciso é
um Governo Mundial. A melhor maneira de realizá-lo é fortalecendo as
Nações Unidas” (Relatório sobre o Desenvolvimento Humano, 1994).
A autoridade avassaladora desse projeto
constitui hoje a fonte única e central de onde jorram sobre toda a
população terráquea legislações uniformes em matéria de indústria,
comércio, ecologia, saúde, educação, quotas raciais, desarmamento civil,
etc. A docilidade com que até nações poderosas como a Inglaterra se
vergam às suas exigências — embora nenhuma com o entusiástico servilismo
brasileiro — deve-se em parte à natureza informal, sutil e tácita do
processo, que vai se implantando em doses homeopáticas, delicadamente,
sem assumir sua existência de conjunto, transferindo para o recinto
fechado das comissões técnicas as decisões rotuladas complexas demais
para a competência da opinião pública e antecipando, assim, o fato
consumado à mera possibilidade da discussão aberta.
As únicas resistências que tem encontrado vêm dos EUA e de Israel.
Mas os EUA permanecem num constante
vaivém entre o desejo de afirmar sua independência contra as pretensões
do globalismo e a tentação de tomar as rédeas do processo para
conduzi-lo a seu modo. Assumir a liderança da uniformização mundial,
arriscando perder a soberania e desarmar-se contra agressões letais, ou
então entrincheirar-se numa auto-afirmação nacionalista com o risco de
desmantelar a aparente “ordem internacional” e suportar a hostilidade
conseqüente, eis as opções que se oferecem aos EUA. A primeira dessas
tendências predominou no governo Clinton. O resultado foi que os
americanos, de concessão em concessão, consentiram em se enfraquecer
militarmente e em curvar-se à intromissão estrangeira em campos vitais
como ecologia, educação e imigração, ao mesmo tempo que, envergando a
máscara de líderes e beneficiários maiores da globalização, se tornavam o
bode expiatório do próprio mal que os debilitava. Com o governo Bush, a
orientação girou 180 graus. A virada veio em 2001, com a rejeição do
Protocolo de Kyoto e a decisão de reagir ao 11 de setembro sem o
beneplácito da ONU.
O projeto do governo mundial é originariamente comunista (v. Elliot R. Goodman, O Plano Soviético de Estado Mundial,
Rio, Presença, 1965), e os grupos econômicos ocidentais que se deixaram
seduzir pela idéia, esperando tirar proveito dela, sempre acabaram
financiando movimentos comunistas ao mesmo tempo que expandiam
globalmente seus próprios negócios. As fundações Ford e Rockefeller são
os exemplos mais notórios. Nesses como em outros casos, a contradição
entre o interesse econômico envolvido e as ambições políticas de longo
prazo é origem de inumeráveis ambigüidades que desorientam o observador
e, se ele é preguiçoso, o induzem a não pensar mais no assunto.
Uma coisa é certa: nos anos 70 e 80, a
globalização parecia favorecer os EUA, mas na década seguinte ela tomou o
rumo bem claro de uma articulação mundial anti-americana e, por tabela,
anti-israelense. A eleição de George W. Bush e a política de afirmação
nacional que ele tem seguido são as respostas lógicas a essa nova
situação.
Como isso afeta o Brasil?
O sr. Luís Inácio da Silva foi posto no
poder com o apoio da rede global de partidos e organizações tecida em
torno da ONU. Essa rede constitui o núcleo do governo mundial em
avançada fase de implantação. A exorbitância de aplausos internacionais
que saudaram a eleição do candidato petista não veio do nada: foi a
expressão natural de júbilo do criador ante o sucesso da criatura. Se a
própria escolha do Brasil como sede do Fórum Social Mundial poucos meses
antes das eleições já não fosse prova suficiente da articulação
planetária montada para esse fim, bastaria como confirmação ex post facto a
pressa obscena com que a rede se mobilizou para tentar dar ao cidadão
um Prêmio Nobel pelo “Fome Zero” antes que uma só colherada de feijão
estatal chegasse à boca de algum faminto. O primeiro Nobel-a-crédito da
História não chegou a ser conferido, mas é revelador.
Nesse quadro, a mobilização contra o
“império americano” é hoje apenas uma vasta operação diversionista para
camuflar a implantação do verdadeiro império e para colocar a serviço
dele as veleidades nacionalistas de povos pouco esclarecidos, mais
propensos a esbofetear espantalhos convencionais do que a identificar e
enfrentar as verdadeiras fontes das limitações que os oprimem. Lutando
contra a mera possibilidade teórica de um domínio mundial americano, as
nações de cretinos tudo cedem ante uma ditadura global já praticamente
vitoriosa no presente.
Um século de liberdade econômica e política é suficiente para tornar
alguns capitalistas tão formidavelmente ricos que eles já não querem
submeter-se às veleidades do mercado que os enriqueceu. Querem
controlá-lo, e os instrumentos para isso são três: o domínio do Estado,
para a implantação das políticas estatistas necessárias à eternização do
oligopólio; o estímulo aos movimentos socialistas e comunistas que
invariavelmente favorecem o crescimento do poder estatal; e a
arregimentação de um exército de intelectuais que preparem a opinião
pública para dizer adeus às liberdades burguesas e entrar alegremente
num mundo de repressão onipresente e obsediante (estendendo-se até aos
últimos detalhe da vida privada e da linguagem cotidiana), apresentado
como um paraíso adornado ao mesmo tempo com a abundância do capitalismo e
a “justiça social” do comunismo. Nesse novo mundo, a liberdade
econômica indispensável ao funcionamento do sistema é preservada na
estrita medida necessária para que possa subsidiar a extinção da
liberdade nos domínios político, social, moral, educacional, cultural e
religioso.
Com isso, os megacapitalistas mudam a base mesma do seu poder.
Já não se apóiam na riqueza enquanto tal, mas no controle do processo
político-social. Controle que, libertando-os da exposição aventurosa às
flutuações do mercado, faz deles um poder dinástico durável, uma
neo-aristocracia capaz de atravessar incólume as variações da fortuna e a
sucessão das gerações, abrigada no castelo-forte do Estado e dos
organismos internacionais. Já não são megacapitalistas: são metacapitalistas
– a classe que transcendeu o capitalismo e o transformou no único
socialismo que algum dia existiu ou existirá: o socialismo dos
grão-senhores e dos engenheiros sociais a seu serviço.
Essa nova aristocracia não nasce, como a anterior, do heroísmo
militar premiado pelo povo e abençoado pela Igreja. Nasce da
premeditação maquiavélica fundada no interesse próprio e, através de um
clero postiço de intelectuais subsidiados, se abençoa a si mesma.
Resta saber que tipo de sociedade essa aristocracia
auto-inventada poderá criar – e quanto tempo uma estrutura tão
obviamente baseada na mentira poderá durar.
8. Hoje em dia, a promessa de eliminação
radical da miséria e da desigualdade social no mundo, repetida ao ponto
de disseminar por toda parte uma explosiva impaciência com a
continuidade desses males, é alardeada principalmente pelos centros de
difusão do projeto globalista, cujo porta-voz mais notório é a ONU.
Dessa mesma origem provêm inúmeros outros projetos associados, como o da
uniformização mundial dos padrões educacionais, o de um controle
ecológico global o de uma fusão administrativa de todas as religiões
numa espécie de gerência espiritual do planeta. Não pretendo opinar
sobre os planos econômicos da ONU e demais entidades associadas, que não
estudei a fundo, mas tenho a certeza de que não estão desligados dos
projetos nas áreas de educação, ecologia e religião, já que, se me
permitem, o globalismo é global, isto é, holístico, uma visão unificada
construída ao longo de meio século e não uma colcha de retalhos
improvisada. Tal como no século XVIII, a utopia do progresso igualitário
vem hoje no bojo de um projeto civilizacional integral, a ser realizado
por meio do planejamento centralizado. A diferença é que os philosophes se tornaram burocratas, têm poder decisório, recursos financeiros ilimitados e escala de ação global.
9. Um breve exame do Index of Economic Freedom ,
aqui citado na semana retrasada, basta para mostrar que os níveis
máximos de miséria e desigualdade social coincidem com os locais de
maior interferência estatal e economia planejada. O argumento em favor
da economia planejada global é que os planejamentos falharam porque
adotados em escala nacional, defrontando-se ao mesmo tempo com
dificuldades que transcendiam as fronteiras das nações. Basta portanto
universalizá-los e tudo correrá às mil maravilhas.
10. O programa globalista não é a mesma
coisa que a expansão mundial do capitalismo, um processo historicamente
espontâneo no qual ele toma carona parasitária, tal como aconteceu em
escala nacional em vários países, onde o crescimento do capitalismo teve
como efeito colateral a ascensão dos metacapitalistas e a proliferação
dos seus aliados naturais, os burocratas e os intelectuais ativistas.
Nesse sentido, a profecia de Karl Marx de que o capitalismo geraria os
seus próprios coveiros se revelou acertada, com a ressalva de que esse
papel não coube nem poderia caber aos proletários, mas à parcela mais
ambiciosa politicamente da própria classe capitalista e aos
“intelectuais” (no sentido gramsciano e ampliado do termo). Esta
ressalva, por sua vez, foi diagnosticada e expressa em tempo hábil pelos
socialistas fabianos – especialmente Bernard Shaw –, não sendo, pois,
de espantar que o fabianismo tenha se tornado, formal ou informalmente, a
ideologia dominante das elites burocráticas globalistas. A tensão
aparentemente insolúvel entre expansão do capitalismo e centralização
burocrática mundial lateja no fundo do conflito, acima mencionado, entre
os EUA e os organismos globais.
11. Exatamente como as propostas
globalistas em educação, ecologia e cultura religiosa – cujas fontes
analisarei em outro artigo –, a promessa de eliminação mundial da
pobreza é uma parte integrante de um discurso ideológico globalista, e a
ela não corresponde nenhum mecanismo prático de realização exceto
aqueles já desencadeados espontaneamente – e anteriormente — pela
expansão planetária do capitalismo, à qual o globalismo só vem a
acrescentar, em última análise, um elemento parasitário: os custos
crescentes de uma burocracia planetária cada vez mais intromedida,
paralisante e contraproducente.
12. A luta contra a pobreza e a
desigualdade social encontra-se hoje no seu ponto de máxima tensão. De
um lado, a revolta radical contra esses males milenares se incorporou de
tal modo à mentalidade coletiva, que por toda parte se espalhou a
expectativa insana de soluções globais a prazo relativamente curto. De
outro lado, essa mesma expectativa alimenta o crescimento da burocracia
planetária que suga e desvia para seus próprios objetivos políticos os
frutos da expansão mundial do capitalismo, retardando a distribuição dos
seus benefícios a bilhões de seres humanos necessitados.
13. O Brasil, nesse panorama, é uma folha
levada na tempestade, incapaz não só de controlar o seu destino mas até
mesmo de compreendê-lo, graças à inépcia geral dos “intelectuais”
nacionais, que estão entre os mais despreparados, levianos e
pretensiosos do mundo.
Assim descrito o quadro, na medida das
minhas possibilidades, e ressalvada qualquer imprecisão devida à pressa
da redação jornalística, permito-me agora emitir uma opinião. Como
qualquer outro ser humano, eu desejaria uma vida melhor para todos, mas,
ao contrário da maioria deles, não acredito que se deva esperar algum
progresso substancial na busca desse objetivo ao longo das próximas
décadas, apesar de todas as conquistas da técnica agrícola e industrial.
A tensão entre capitalismo e globalismo não resultará necessariamente
em tragédia global, mas é quase impossível que ela não desemboque mais
cedo ou mais tarde em agressões militares de conseqüências
incalculáveis. O capitalismo é uma força de expansão, o globalismo uma
força de contração. Equivalem, no simbolismo alquímico, ao mercúrio e ao
enxofre. A produção da resultante – alquimicamente, o sal – é um
processo infinitamente delicado, sutil e complexo, mais sujeito ao acaso
e à providência divina do que ao arbítrio humano. A atenção devota, a
paciência, a prudência e a busca constante da compreensão do processo
são aí incomparavelmente mais úteis e necessárias do que os programas e
as palavras-de-ordem. Mais úteis ainda para aqueles países que, sem ter
voz ativa no processo, não podem contar senão com a esperança de uma
adaptação vantajosa às circunstâncias de cada momento. Infelizmente, é
precisamente nesses países que prolifera de maneira mais incontrolável a
raça dos “intelectuais” amantes de slogans e palavras-de-ordem.
1) Globalismo não é simples abertura de mercados: é introdução de
regulamentações em escala mundial que transferem a soberania das nações
para organismos internacionais. Nenhum apóstolo da economia de mercado é
sonso o bastante para não perceber, hoje em dia, que a abertura das
fronteiras arrisca não produzir um paraíso de liberdade econômica, e sim
a proliferação de legislações e controles em escala global – o Leviatã
dos leviatãs. A incompatibilidade lógica traduz-se, no plano da ação
política, como briga de foice entre os liberais clássicos e os
planejadores-legisladores econômicos globais.
Na verdade, qualquer pessoa razoavelmente informada em relações
internacionais sabe que Kerry — ou, de modo geral, o Partido Democrata —
é o instrumento de um esquema de poder mundial encastelado na ONU, na
Comunidade Européia e nos grandes bancos internacionais. Outro braço
desse esquema é a rede de partidos latino-americanos de esquerda,
fortemente incentivados pelo Departamento de Estado, desde o governo
Carter (um antepassado de Kerry), a demolir as forças armadas de seus
respectivos países para torná-los cada vez mais vulneráveis às pressões
internacionais do globalismo ecológico, dos movimentos indigenistas que
planejam desmembrá-los em pequenas repúblicas “independentes” (isto é,
agências da ONU), das burocracias internacionais que ditam legislações a
povos inteiros que não as elegeram para isso, etc. etc. Bush, apoiado
por grupos industriais mais voltados para o mercado interno e por
organizações religiosas apegadas aos valores tradicionais da república
americana, personifica a resistência da nação mais poderosa do mundo a
um neo-imperialismo que, sugando desde dentro e minando desde fora as
forças da adversária, se torna dia a dia mais poderoso que ela, e cujas
ambições praticamente ilimitadas incluem a transferência da soberania
americana para os organismos internacionais. https://olavodecarvalho.org/corrida-para-a-derrota/