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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

ATUAÇÃO DA KGB NO BRASIL EM 1964 - OLAVO DE CARVALHO



1964 O Elo Perdido
O Brasil nos Arquivos do Serviço Secreto Comunista
 
Prefácio de Olavo de Carvalho ao livro de Mauro Abranches sobre a atuação da KGB no Brasil
Olavo de Carvalho
25 de outubro de 2017

Este livro, sozinho, vale mais do que toda a bibliografia consagrada sobre os acontecimentos de 1964.

PREFÁCIO
Olavo de Carvalho

Condensando um zunzum que já circulava em jornais comunistas e em teses do Comitê Central do PCB, o livro do jornalista Edmar Morel, O Golpe Começou em Washington, publicado pela Editora Civilização Brasileira em 1965, lançou, já no seu título, o mantra que desde então foi repetido incansavelmente em artigos, reportagens, livros, teses universitárias, filmes, especiais de TV e vídeos do youtube: o movimento que removeu do cargo o então presidente João Goulart foi, no essencial, uma trama do governo americano, uma brutal intervenção estrangeira dos assuntos nacionais, uma manobra da CIA urdida para derrubar um governo nacionalista cujas reformas ameaçavam os interesses do capital imperialista.

A Civilização Brasileira era a maior editora comunista do país, dirigida pelo militante histórico Ênio Silveira, e Edmar Morel, tendo servido ao famigerado Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) da ditadura Vargas, soube adaptar-se rapidamente aos novos ares após a queda do ditador: ganhou do governo soviético uma viagem a Moscou, que relatou num livro de 1952. Ninguém ignora o que essas viagens significam na longa história das cooptações e recrutamentos.

Não é humanamente possível fazer a lista das publicações e produções que endossaram a tese de Edmar Morel. Praticamente nenhum jornal, canal de TV ou universidade, no Brasil (e algumas no exterior) falhou em repeti-la com a constância de um devoto recitando preces jaculatórias. Mais recentemente, a tese ganhou o apoio de celebridades americanas, entre as quais Noam Chomsky, e, entre inumeráveis filmes que confirmavam a mesma versão dos acontecimentos, pelo menos um recebeu um prêmio nos EUA.

Tão vasta, contínua e prestigiosa unanimidade é de molde a desencorajar, no nascedouro, qualquer objeção que possa colocá-la em dúvida.

No entanto, toda essa vistosa e idolatrada construção, em que se empenharam tantos cérebros, tantas verbas públicas e tantos patrocínios privados, é posta abaixo e reduzida a pó mediante uma simples pergunta: Como é possível que a CIA tenha exercido tão profunda e avassaladora influência no curso da história nacional em 1964, se até agora não apareceu, na imensa bibliografia a respeito, o nome de um único agente daquela organização que estivesse lotado no Brasil na época? Nem unzinho só.

Como é possível tanta ação sem nenhum agente?

Inversa e complementarmente, a teoria moreliana do golpe de 1964 baseia-se na premissa – tão unânime e indiscutida quanto ela mesma – de que não havia nem séria infiltração comunista no governo João Goulart, nem o menor risco de uma revolução comunista, nem muito menos qualquer ingerência soviética nos assuntos nacionais. A importância vital deste livro reside em que demole a porretadas esse mito, mostrando que, em contraste com a ausência total de homens da CIA operando no Brasil naquela ocasião, os agentes da KGB nas altas esferas da República eram, documentadamente, centenas, talvez milhares. O governo Goulart nunca foi senão uma ponta-de-lança do imperialismo soviético.

Mauro Abranches é um tradutor brasileiro residente na Polônia, dominador tanto da língua polonesa quanto da checa, e não faz aqui obra de polêmica, muito menos de acusação: lê e resume documentos de fonte primárias – sobretudo do serviço checo de inteligência, a STB — com extrema idoneidade científica e tem o cuidado de não sair carimbando ninguém de “agente da KGB”, nem mesmo quando há razões de sobra para fazê-lo, enfatizando, antes, que muitas pessoas mencionadas nesses documentos não passam de inocentes úteis, levados a colaborar com a subversão comunista sem seu pleno consentimento e às vezes sem clara consciência do que se passava. Ainda assim, o panorama que ele traça da presença soviética no governo João Goulart ultrapassa as dimensões da mera “infiltração” e justifica falar, mesmo, de “ocupação”.

Sem nenhum exagero, a narrativa oficial de 1964 é uma inversão completa e cínica da realidade, dando foros de certeza ao que é mera conjetura, quando não invencionice, e ocultando montanhas de fatos decisivos.

Este livro, sozinho, vale mais do que toda a bibliografia consagrada sobre os acontecimentos de 1964. E uma pergunta que ele suscita inevitavelmente é: quanto dessa bibliografia não foi inspirado ou produzido, justamente, pelos mesmos agentes soviéticos aqui nomeados e fichados?

Antes mesmo das revelações aqui estampadas, os rombos da narrativa canônica já eram tão gigantescos que, para não vê-los, era preciso um considerável esforço de auto-hipnose.

Vinha, em primeiro lugar, a crença geral de que Goulart fora derrubado, não por ser um joguete nas mãos dos comunistas, mas por ser um patriota, um nacionalista, cujas “reformas de base” constituíam um acinte e uma ameaça aos interesses do capital imperialista.

Mas como podia ser isso, se o malfadado presidente jamais apresentou um único projeto de “reforma de base”, todas as iniciativas nesse sentido partindo do Congresso contra o qual ele tanto esbravejava?

Como observei em artigo de 25 de maio de 2014, a “ lei mesma da remessa de lucros, que teria sido a ‘causa imediata’ do golpe, só o que Goulart fez com ela foi sentar-se em cima do projeto, que acabou sendo aprovado por iniciativa do Congresso, sem nenhuma participação do presidente. Se a fúria do capital estrangeiro contra essa lei fosse a causa do golpe, este teria se voltado não contra Goulart e sim contra o Congresso – Congresso que, vejam só, aprovou o golpe e tomou, sem pressão militar alguma, a iniciativa de substituir Goulart por um presidente interino”.

Outro simulacro de prova em favor da tese da “intervenção imperialista” foi a ajuda que algumas entidades americanas – não a CIA – deram à resistência parlamentar e jornalística anti-Goulart. Ninguém, entre os que apelavam a esse argumento, fez jamais a seguinte pergunta: se os tais agentes do imperialismo ianque exerciam tanta influência sobre o Congresso e a grande mídia, reunindo condições para um impeachment do presidente, com uma transição legal e pacífica, por que iriam recorrer ao método traumático e desnecessário da intervenção militar?

Para sustentar que “o golpe começou em Washington” seria preciso provar, não que o governo americano ajudou a fomentar uma gritaria difusa contra a situação, mas que os agentes dele participaram ativa e materialmente da conspiração militar em si, entrando em reuniões secretas de generais e discutindo com eles os detalhes estratégicos e táticos da mobilização final. Mas, se não existe sequer indício da presença de um único agente da CIA no território nacional, como poderia haver provas de que essa criatura inexistente fez isso ou aquilo?

A tese consagrada mistura, numa síntese confusa mais conveniente aos objetivos da propaganda que aos da ciência histórica, a ação pública com a ação secreta, a atmosfera política geral com as iniciativas concretas dos militares e, fundindo tudo sob a mágica do símbolo “interesse imperialista”, enxerga uma autoria única e central por trás de processos não só diversos, como antagônicos.

De fato, quando o general Mourão partiu de Minas Gerais com suas tropas, ninguém, absolutamente ninguém num Congresso que estava ansioso para se livrar do incômodo presidente, tinha a menor idéia de que houvesse alguma iniciativa militar em andamento.

Longe de tramar o golpe, os americanios estavam, isto sim, apostando no que se destinava a ser e poderia ter sido uma alternativa parlamentar à intervenção militar. No mesmo artigo citado, escrevi:

“Todos os jornais do país, até hoje, usam como prova da cumplicidade americana (com o golpe) a gravação de uma conversa telefônica na qual o embaixador Lincoln Gordon pedia ao presidente Lyndon Johnson que tomasse alguma providência ante o risco iminente de uma guerra civil no Brasil. Johnson, em resposta, determinou que uma frota americana se deslocasse para o litoral brasileiro. Fica aí provado… que os americanos foram, se não os autores, ao menos cúmplices do golpe. Mas, para que essa prova funcione, é necessário escamotear quatro detalhes: (1) A conversa aconteceu no próprio dia 31 de março, quando os tanques do general Mourão Filho já estavam na rua e João Goulart já ia fazendo as malas. Não foi nenhuma participação em planos conspiratórios, mas a reação de emergência ante um fato consumado. 2) A frota americana estava destinada a chegar aos portos brasileiros só em 11 de abril. Ante a notícia de que não haveria guerra civil nenhuma, retornou aos EUA sem nunca ter chegado perto das nossas costas. (3) É obrigação constitucional do presidente dos EUA enviar tropas imediatamente para qualquer lugar do mundo onde uma ameaça de conflito armado ponha em risco os americanos ali residentes. Se Johnson não cumprisse essa obrigação, estaria sujeito a um impeachment. (4) As tropas enviadas não bastavam nem para ocupar a cidade do Rio de Janeiro, quanto mais para espalhar-se pelos quatro cantos do país onde houvesse resistência pró-Jango e dar a vitória aos golpistas.”

A insistência obstinada numa tese impossível explica também o silêncio atordoante com que mídia e o establishment bem-pensante em geral receberam a revelação do então chefe da KGB no Brasil, Ladislav Bittman, de que essa mesma tese fora inventada pela própria espionagem soviética, mediante documento falso enviado a todos os jornais na ocasião. De 2001 a 2014, várias vezes tentei, em vão, chamar a atenção da classe jornalística para o livro de memórias em que o agente checo faz essa confissão explosiva.

O silêncio cúmplice, o comodismo, a mistura promíscua e obscena de jornalismo com militância esquerdista, conseguiram bloquear, por meio século, o acesso do povo brasileiro não só a fatos como a meras perguntas que pudessem abalar a mitologia dominante.

Mas agora a brincadeira acabou. Não só este livro memorável traz a prova cabal e definitiva do engodo, mas surge numa situação bem diversa daquela em que o país viveu nos últimos cinquenta e tantos anos. Hoje há um público mais consciente, que, desmoronada a farsa do comunopetismo, já não se verga, com mutismo servil, ante a opinião do beautiful people jornalístico e universitário.

O trabalho paciente e consciencioso de Mauro Abranches vai, com certeza, encontrar uma platéia atenta e sensível, madura para desprezar o argumentum auctoritatis e sobrepor, à lenda, a realidade.

Notas: 1. Não preciso relembrar aqui os freqüentes e discretíssimos episódios de carreiras universitárias abruptamente encerradas pela ousadia de contestar esse ou qualquer outro dogma do credo esquerdista. ———– 2. V. http://www.olavodecarvalho.org/falsificacao-integral/.

3. V. meu artigo “Sugestão aos colegas”, de 17 de fevereiro de 2001, http://www.olavodecarvalho.org/sugestao-aos-colegas/.

4. Como se verá no presente livro, a KGB, nos países do Terceiro Mundo, não atuava diretamente, mas através dos serviços secretos dos países satélites; no Brasil, a STB, serviço de inteligência da Tchecoslováquia.

Tags:Brasil, comunismo, Desinformação, ditadura, Esquerdismo, História, KGB

http://midiasemmascara.org/artigos/destaques/prefacio-de-olavo-de-carvalho-ao-livro-de-mauro-abranches-sobre-a-atuacao-da-kgb-no-brasil/

***

 Paulo Eduardo Martins  · “Um memorando da CIA, também tornado público, sugere que Oswald falou com um agente da KGB na embaixada da Rússia na Cidade do México, em 28 de setembro de 1963. Segundo o documento, ele falou com Valeriy Vladimirovich Kostikov, um conhecido espião russo que trabalhava que trabalhava num setor responsável por assassinato e sabotagem. Depois, Oswald ligou para a embaixada e perguntou, em russo, se havia "algo de novo sobre o telegrama para Washington"
https://www.facebook.com/PauloEduardoOficial/posts/1749853988367157
DIVULGAÇÃO SELETIVA?
http://m.dw.com/pt-br/eua-mant%C3%AAm-sigilo-de-parte-de-arquivos-sobre-morte-de-kennedy/a-41133320

STB NO BRASIL
http://stbnobrasil.com/pt/category/artigos-em-portugues-pt
https://www.facebook.com/brasilstb/

O Brasil nos arquivos do bloco soviético - MAURO ABRANCHES - STB
http://conspiratio3.blogspot.com.br/2017/04/exclusivo-o-brasil-nos-arquivos-do.html

Censores da Wikipédia apagam artigo sobre ações da StB no Brasil
http://edmundosoares.wixsite.com/avivaralembranca/single-post/2016/05/08/Censores-da-Wikip%C3%A9dia-apagam-artigo-sobre-a%C3%A7%C3%B5es-da-StB-no-Brasil


Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU): um plano para a escravização global da humanidade sob os pés das grandes corporações
http://tradutoresdedireita.org/agenda-2030-da-organizacao-das-nacoes-unidas-onu-um-plano-para-a-escravizacao-global-da-humanidade-sob-os-pes-das-grandes-corporacoes/

terça-feira, 26 de novembro de 2013

A MÃO DA KGB NA MORTE DE KENNEDY



A MÃO DA KGB NO ASSASSINATO DE JFK: A NOVA PROVA

Escrito por Ion Mihai Pacepa | 25 Novembro 2013

Artigos - Desinformação        

“Para entender realmente os mistérios da espionagem soviética, de nada ajuda ver um filme de agente secreto ou ler um romance de espiões, pois isto é apenas diversão. Você precisa ter vivido naquele mundo de segredo e falsidade durante uma vida, como eu vivi, e mesmo assim pode não entender o que está acontecendo nos momentos mais obscuros, a menos que seja um dos pouquíssimos no topo da pirâmide.”

O presidente John F. Kennedy foi assassinado faz 50 anos, e a maior parte das pessoas ainda acredita erroneamente que o culpado foi a CIA ou o FBI, a máfia ou os empresários conservadores americanos. Também há 50 anos, o Kremlin deu início a uma intensa operação de desinformação mundial, de codinome “Dragon”, destinada a desviar a atenção da ligação da KGB com Lee Harvey Oswald. Há uma conexão entre os fatos: Oswald era um marine americano que desertou para Moscou, retornou aos Estados Unidos três anos depois com a sua esposa russa, matou o presidente Kennedy e foi preso antes de conseguir pôr em prática o seu plano de fugir para Moscou. Em uma carta datada de 1° de julho de 1963, Oswald pediu à embaixada soviética em Washington, D.C., para conceder à sua esposa um visto imediato de entrada na União Soviética e outro para ele separadamente (na carta, “separadamente” está escrito com erro de ortografia e sublinhado). 

A operação “Dragon” do Kremlin está descrita no meu livro Programmed to Kill: Moscow’s Responsibility for Lee Harvey Oswald’s Assassination of President John Fitzgerald Kennedy. Em 2010, este livro foi exibido na Organization of American Historians junto com uma resenha do professor Stan Weber (McNeese State University). Ele descreveu o livro como um “novo e excelente trabalho exemplar sobre a morte do presidente Kennedy” e “leitura obrigatória por toda e qualquer pessoa interessada no assunto”. [1] 

Programmed to Kill é uma análise real do crime do século da KGB cometido durante a era Khrushchev. Naqueles dias, o antigo conselheiro chefe da KGB na Romênia havia se tornado o comandante do onipotente serviço de espionagem estrangeiro soviético e me levou para os mais altos círculos da camarilha da inteligência do bloco soviético. O meu livro também contém uma apresentação real dos frenéticos esforços de Khrushchev para proteger o seu traseiro. Lembrando-se de que o assassinato do arquiduque Franz Ferdinand pelo terrorista sérvio Gavrilo Princip, em 1914, havia dado início à Primeira Guerra Mundial, Khrushchev temia que o conhecimento pelos EUA do envolvimento da KGB com Oswald podia ser o estopim da primeira guerra nuclear. Os interesses de Khrushchev coincidiram com os interesses de Lyndon Johnson, o novo presidente americano, prestes a enfrentar eleições em menos de um ano, e qualquer conclusão implicando a União Soviética no assassinato forçaria Johnson a tomar uma ação política ou militar indesejada, prejudicando ainda mais a sua popularidade, já baixa por causa da guerra no Vietnã. 

De acordo com novos documentos da KGB, disponíveis após Programmed to Kill ter sido publicado, o esforço soviético para desviar a atenção do envolvimento da KGB no assassinato de Kennedy começou no dia 23 de novembro de 1963 – o dia imediatamente seguinte ao dia em que Kennedy foi morto – e teve início com um memorando para o Kremlin assinado pelo comandante da KGB Vladimir Semichastny. Ele pediu ao Kremlin para publicar imediatamente um artigo em um “jornal progressista em um dos países do Ocidente… mostrando a tentativa, por círculos reacionários nos EUA, de tirar a responsabilidade pelo assassinato de Kennedy dos verdadeiros criminosos, (ou seja), os racistas e ultra-direitistas, culpados pela propagação e crescimento da violência e terror nos Estados Unidos”.

O Kremlin concordou. Dois meses mais tarde, R. Palme Dutt, editor de um jornal britânico controlado pelos comunistas chamado Labour Monthly, assinou um artigo levantando o espectro do envolvimento da CIA sem oferecer a mínima prova. “(A maior parte d)os comentaristas” Dutt escreveu “suspeita de um golpe de ultra-direitistas ou racistas de Dallas… (que), com a manifesta cumplicidade necessária por parte de uma ampla gama de autoridades, exibe todos os carimbos de um trabalho da CIA”. A carta super secreta de Semichastny e o subsequente artigo de Dutt foram reveladas pelo ex-presidente russo Boris Yeltsin no seu livro The Struggle for Russia, publicado 32 anos após o assassinato de Kennedy.

Não é de admirar que Yeltsin tenha sido desalojado do palácio por um golpe da KGB transferindo o trono do Kremlin para as mãos da KGB – que ainda o segura com firmeza. Em 31 de dezembro de 1999, Yeltsin surpreendeu a Rússia e o resto do mundo ao anunciar a sua aposentadoria. “Entendo que devo fazê-lo” (2) explicou, falando em frente a uma árvore festivamente decorada para o Ano Novo junto a uma bandeira russa azul, vermelha e branca e uma águia russa dourada. Yeltsin em seguida assinou uma lei “no uso dos poderes do presidente russo” declarando que, sob o Artigo 92 Seção 3 da Constituição Russa, o poder do presidente russo seria temporariamente exercido pelo Primeiro Ministro Vladimir Putin, a partir do meio-dia de 31 de dezembro de 1999. (3) De sua parte, o recentemente designado presidente assinou um decreto perdoando Yeltsin, supostamente ligado a pesados escândalos de suborno, “de quaisquer possíveis delitos” e concedendo a ele “total imunidade” a processos (ou até mesmo investigações e interrogatórios) referentes a “toda e qualquer” ação realizada durante o governo. Putin também deu a Yeltsin uma pensão vitalícia e uma dacha do estado (4). 

Logo em seguida, a pequena janela no arquivo da KGB, aberta com estrondo por Yeltsin, foi fechada silenciosamente. Felizmente, antes disso ele foi capaz de revelar o memorando de Semichastny, responsável por gerar a conspiração Kennedy que nunca mais parou.

O artigo de Dutt foi seguido pelo primeiro livro sobre o assassinato de JFK publicado nos Estados Unidos: Oswald: Assassin or Fall Guy? Escrito por um antigo membro do Partido Comunista da Alemanha, Joachim Joesten, foi publicado em Nova Iorque em 1964 por Carlo Aldo Marzani, antigo membro do Partido Comunista Americano e agente da KGB. O livro de Joesten alega, sem fornecer nenhuma prova, que Oswald era “um agitador do FBI com passado na CIA”. Documentos altamente secretos da KGB contrabandeados da Rússia pelo desertor Vasili Mitrokhin, com a ajuda do MI6 britânico, em 1993 – bem depois das duas investigações do governo americano sobre o assassinato terem sido concluídas – mostram que no início dos anos 1960, Marzani recebeu subsídios num total de 672 mil dólares do Comitê Central do Partido Comunista. Isto levanta a questão do porquê Marzani ter sido pago pelo partido e não pela KGB, da qual era agente. A carta recentemente liberada de Semichastny nos dá a resposta: no dia seguinte ao do assassinato, o Kremlin assumiu o controle da operação de desinformação destinada a culpar os Estados Unidos pelo assassinato de JFK. Por este motivo, Oswald: Assassin or Fall Guy? foi promovido por uma operação conjunta do partido com a KGB.

A primeira resenha do livro, altamente elogiosa, foi assinada por Victor Perlo, membro do Partido Comunista Americano, e publicada em 23 de setembro de 1964 na publicação New Times, a qual eu conhecia como uma fachada da KGB por ter sido impressa uma vez na Romênia. Em 9 de dezembro de 1963, o jornalista “progressista” americano I. F. Stone publicou um longo artigo no qual tentou justificar porque os Estados Unidos haviam assassinado o seu próprio presidente. Ele chamou Oswald de louco direitista, mas colocou a culpa real na “belicosa Administração” dos Estados Unidos, que estava tentando vender para a Europa uma “monstruosidade nuclear”. Stone foi identificado como agente pago da KGB, de codinome “Blin”. 

Joesten dedicou o seu livro a Mark Lane, esquerdista americano autor, em 1966, do best-seller Rush to Judgment, segundo o qual Kennedy fôra assassinado por um grupo americano conservador. Documentos do Arquivo Mitrokhin mostram que a KGB enviou indiretamente dinheiro para Mark Lane (dois mil dólares) e que o agente da KGB Genrikh Borovik mantinha contato regular com ele. Outro desertor da KGB, o coronel Oleg Gordievsky (antigo chefe do posto da KGB em Londres) identificou Borovik como cunhado do general Vladimir Kryuchkov; Kryuchlov se tornou comandante da KGB em 1988 e em agosto de 1991 liderou o golpe em Moscou tentando recriar a União Soviética. 

O ano de 1967 viu a publicação de mais dois livros atribuídos a Joesten: The Case Against Lyndon Johnson in the Assassination of President Kennedy e Oswald: The Truth. Ambos sugeriam que o presidente Johnson e a CIA haviam matado Kennedy. Logo foram seguidos por A Citizen´s Dissent, de Mark Lane (1968). Lane também viajou bastante mundo afora pregando que os Estados Unidos eram um “estado policial do FBI” responsável pela morte do seu próprio presidente. 

Com tais livros, a conspiração sobre Kennedy nascera, e jamais morreria. A crescente popularidade dos livros sobre o assassinato de JFK encorajou todo o tipo de gente com qualquer conhecimento remotamente relacionado com o assunto a entrar na festa, cada qual vendo os eventos a partir de sua limitada perspectiva. Alguns milhares de livros foram escritos sobre o assassinato de Kennedy, e a hemorragia continua. A despeito desta crescente montanha de papel, uma explicação satisfatória da motivação de Oswald ainda precisa ser dada, primeiramente porque a importante dimensão do assunto da política externa soviética e da prática da inteligência soviética no fim dos anos 1950 e no começo dos anos 1960 ainda não foi relacionada com Oswald por nenhuma autoridade competente. Por que não? Porque nenhuma destas autoridades jamais pertenceu à KGB, nenhuma tem familiaridade com o seu modus operandi. 

Por sua própria natureza, a espionagem é um empreendimento enigmático e dúbio, e  nas mãos dos soviéticos desenvolveu-se e virou uma filosofia completa, onde cada aspecto tinha o seu próprio conjunto de regras testadas e precisas e seguia um padrão fixo. Para entender realmente os mistérios da espionagem soviética, de nada ajuda ver um filme de agentes secretos ou ler um romance de espiões, pois isto é apenas diversão. Você precisa ter vivido naquele mundo de segredo e falsidade durante uma vida, como eu vivi, e mesmo assim pode não entender o que está acontecendo nos momentos mais obscuros, a menos que seja um dos pouquíssimos no topo da pirâmide. 

Por isso, fiz uma curta apresentação destes momentos sombrios, cruciais para entender como o Kremlin tem sido capaz de fazer todo mundo de bobo, levando todos a acreditar que os Estados Unidos mataram um dos seus mais amados presidentes. Clique aqui para ler “11 Facts That Destroy JFK Conspiracy Theories”. Vamos juntos retornar àquele mundo de espionagem e falsidade soviéticas. Ao fim do nosso resumo, espero que você concorde comigo de que os soviéticos têm uma mão no assassinato do presidente Kennedy. Também espero que depois você veja com olhos diferentes futuros documentos referentes ao assassinato de JFK. Talvez você possa descobrir manobras soviéticas/russas neles ocultas. 

Notas:

1 - Stan Weber, “A New Paradigmatic Work on the JFK Assassination,” H-Net Online, October 2009, http://www.h-net.org/reviews/showrev.php?id=25348
 

2 - Barry Renfrew, “Boris Yeltsin Resigns,” The Washington Post, December 31, 1999, 6:48 a.m. 

3 - Matt Drudge Report, December 31, 1999, 11:00 AM UTC. 

4 - Ariel Cohen, “End of the Yeltsin Era,” The Washington Times, January 3, 2000, Internet Edition, cohen-20000103. 
 

Publicado no site PJ Media em 20 de novembro.

Ion Mihai Pacepa, general da Securitate, a polícia política romena, é o oficial de mais alta patente que desertou do bloco comunista.


Tradução: Ricardo Hashimoto