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sábado, 10 de março de 2018
VEREADORA PRISCILA COSTA DEFENDE A MENOR MINORIA DE TODAS: O INDIVÍDUO
"Como o sr. William Whyte apresentou em seu notável livro THE ORGANIZATION MAN, uma nova ética está substituindo o nosso sistema ético tradicional - o sistema que o indivíduo se apresenta em primeiro lugar. (...) Sua afirmação fundamental é a de que o todo social tem mais valor e importância do que suas partes peculiares, que se deve renunciar às diferenças biológicas inatas em favor da uniformidade cultural, que os direitos da coletividade têm primazia sobre o que o século XVIII proclamava os Direitos do Homem. De acordo com a Ética Social, Jesus errou completamente ao afirmar que o sábado fora feito para o homem. Pelo contrário, o homem é que foi feito para o sábado, e deve sacrificar suas idiossincrasias herdadas e pretender ser o tipo de bom rapaz sociável que os organizadores da atividade consideram ideal para os seus objetivos."
Aldous Huxley, REGRESSO AO ADMIRÁVEL MUNDO NOVO
E dizia-lhes: "O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado;e, para dizer tudo, o Filho do homem é senhor também do sábado."Marcos 2:27,28
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
ENTREVISTA COM UM CONSERVADOR - BRASILEIROS QUEREM DAR MAIS PODER AO ESTADO
Vamos viver e deixar viver
REVISTA VEJA
Edição: 1832 - 09/10/2014
(excerto)
O cientista político português João Pereira Coutinho de 38 anos considerado conservador, autor do livro Ideias Conservadoras faz uma análise sobre a política do Brasil em entrevista a revista Veja. Reproduzimos alguns aspectos.
Um político não é alguém com uma sabedoria especial capaz de conduzir toda uma sociedade rumo a um fim que ele considera ideal. Isso é uma crença primitiva. Um conservador autêntico não entende as coisas assim e sempre vai desconfiar daquele que está no governo, porque sabe que esse indivíduo está sujeito aos mesmos erros que qualquer um. O poder deve ser limitado. O Estado deve apenas garantir as condições mínimas para uma sociedade civilizada, e os cidadãos devem buscar seus fins de vida por sua conta e risco, falhando e acertando. Os ingleses têm uma expressão para isso: viver e deixar viver.
Ele explicita que as manifestações ocorridas no Brasil foram importantes só que em vez de os brasileiros protestarem pedindo que o governo os deixe em paz, eles passaram a exigir mais Estado, com mais poder. Por sua parte, as autoridades entenderam que era necessário fazer isso e os políticos voltaram-se para aqueles manifestantes e disseram: “Vamos cuidar de vocês, crianças”. Os brasileiros têm algo de paradoxa. Quando se pergunta a eles a opinião sobre os políticos, as respostas oscilam entre “corruptos” e“totalmente corruptos”. Seriam indivíduos “para lá da salvação”, como dizemos em Portugal. Apesar disso, os brasileiros cultivam a idéia de que é preciso aumentar a presença do Estado na vida das pessoas. Eles não têm dúvida do que os políticos e os partidos são corruptos e, ao mesmo tempo, querem lhes dar mais poder para influenciar a vida de todos os cidadãos.
As pesquisas de opinião mostram que a população brasileira quer que o Estado controle a Justiça (80%), o sistema de previdência (72%), a saúde (71%) e a educação (69%). Mais da metade gostaria que os bancos fossem estatais. A idéia corrente no Brasil parece ser a de que o governo é exercido por entidades celestiais, e não pelos mesmos políticos que os brasileiros consideram corruptos.
“Os brasileiros têm algo de paradoxal. Eles não têm dúvida de que os políticos e os partidos são corruptos e, ao mesmo tempo, querem lhes dar mais poder para influenciar a vida de todos os cidadãos”
Li os estatutos de vários deles. Não vi nenhum que poderia ser considerado de direita, no sentido mais nobre do termo. Nem o PSDB, nem o Democratas (DEM), nem o Partido Progressista (PP) poderiam ser tratados como tal. Todos eles nutrem uma visão patrimonialista da sociedade, que não separa o que é público do que é privado. Acham que o Estado é o agente principal da vida social, o pastor do rebanho, o salvador, o agente da redenção brasileira. Usam termos como “desigualdade” e “redistribuição de renda mais equitativa”, que são geneticamente de esquerda. A obsessão por esses termos é reveladora. Parece que apenas uma linguagem é permitida.
http://www.jornalmensageiro.com/materia.php?id=15847
O QUE É CONSERVADORISMO? ROGER SCRUTON
http://conspiratio3.blogspot.com.br/2017/05/conservadorismo-o-que-e-ser-conservador.html
MENTALIDADE REVOLUCIONÁRIA X CONSERVADORISMO - OLAVO DE CARVALHO
http://conspiratio3.blogspot.com.br/2017/03/mentalidade-revolucionaria-x.html
A DIREITA NASCEU DA SOCIEDADE, A ESQUERDA FOI TRAMADA - RODRIGO JUNGMANN
https://youtu.be/J_0fihiLuWw
*
O que me impressiona mais nos conservadores é um certo respeito pelo conhecimento, que implica num respeito pelo passado, pelas tradições, pela cultura acumulada e até pela sabedoria adquirida com o tempo pelos mais velhos. As outras posições já partem do pressuposto relativista que vc pode partir do zero e chegar, em tempo, a um resultado razoável. No caso dos socialistas, é o futuro e a imaginação o que realmente têm peso, sua metodologia despreza o conhecimento e a responsabilidade que o acompanha. Acho que assim que vc discerne, um mínimo que seja, a diferença essencial entre opinião e conhecimento, vc sai do relativismo e ingressa no caminho chamado conservador. Não é de um dia para o outro que isso se desenvolve, é uma conquista a cada passo em que se esclarece os fundamentos das idéias que orientam sua vida.
quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
CONFIANÇA: É UMA BELA PALAVRA, TALVEZ A MAIS BELA, JUSTAMENTE PORQUE NÃO É SOMENTE UMA PALAVRA
Abaixo a malícia: só quem confia vence
por OLAVO DE CARVALHO - Versão completa
NB - Esta entrevista saiu na revista República de julho de 1998, mas um tanto cortada para caber no espaço disponível. Por isto resolvi reproduzir aqui, por extenso, os ensinamentos que recebi, em Paris, de um dos homens mais inteligentes do mundo.
| "Não existe mais que uma e uma só fórmula para fazer de um homem um homem autêntico: a fórmula que prescreve a ausência de toda fórmula. Nossos ancestrais tinham uma bela palavra, que resumia tudo: a confiança." Franz ROSENZWEIG |
[Introdução]
A proverbial afeição dos franceses às revoluções e golpes de estado não impediu que, desse povo tão mal acomodado na ordem democrática nascessem, talvez em compensação, algumas das inteligências mais aptas a captar a essência da democracia e a diagnosticar os perigos que a ameaçam. O que não é de estranhar é que tais homens fossem tão pouco profetas em sua própria terra.
Dentre esses pregadores no deserto, o mais conhecido é Alexis de Tocqueville, o primeiro a observar, no seio da própria democracia americana nascente, a contradição até hoje irresolvida - e cada vez mais aguçada - entre igualdade e liberdade. Logo abaixo dele vem Frédéric Bastiat, pioneiro no diagnóstico da natureza voraz e tirânica do Estado moderno. Menos falado, porém altamente respeitado de quem o conhece, é Bertrand de Jouvenel, inteligência implacavelmente realista que destruiu o mito das liberdades crescentes, pondo em seu lugar a demonstração do crescimento ilimitado do poder, da distância cada vez maior entre governantes e governados.
Esses três pensadores têm em comum o pessimismo histórico, a apreensão de democratas sinceros que vêem a liberdade extinguir-se e, olhando em torno, não descobrem meios de defendê-la contra a marcha avassaladora do poder.
Mas este que vou lhes apresentar agora, se compartilha com eles o temor ante os perigos, destaca-se, surpreendentemente, pelo otimismo com que enxerga o futuro. Alain Peyrefitte não é, no entanto, nenhum sonhador. Basta ver os seus olhos para reparar que, por baixo do sorriso simpático, se esconde um observador temível, a quem só um tolo procuraria enganar.
O otimismo de Peyrefitte, além de bem contrabalançado por uma dose de ceticismo, é de um tipo diferente do habitual. Não se baseia somente na esperança, mas na simples constatação de um fato: a liberdade de decisão humana, que nenhum determinismo logrou jamais revogar, seja para instaurar em lugar dela a necessidade do mal, seja a fatalidade do bem crescente. Peyrefitte é otimista pela simples razão de que o pessimismo é uma ilusão deprimente baseada na presunção de já conhecermos o futuro. O futuro a Deus pertence, e Deus seria um verdadeiro idiota se criasse seres capazes de decisão sem deixar na mão deles ao menos uma parcela da responsabilidade por esse futuro. Peyrefitte é otimista porque entende que, ora mais, ora menos, é sempre possível agir. E quem vai provar que não?
Mas estou precipitando as conclusões. Devo dizer, primeiro, quem é Alain Peyrefitte. Membro da Academia Francesa, diplomata de carreira, estadista, historiador, cientista político, jornalista, foi colaborador, amigo e homem de confiança do general Charles de Gaulle por três décadas, deputado em todas as legislaturas da V República e várias vezes ministro: da Educação, da Justiça, do Interior, do Planejamento, da Cultura, da Pesquisa Científica. Preside hoje o conselho editorial do Figaro, ainda o mais poderoso diário francês. Seu pensamento social e político já foi objeto de muitas teses, artigos e congressos, inclusive no Institut de France, dos quais nenhuma notícia chegou a estas plagas.
O primeiro sinal de termos percebido a existência desse espírito extraordinário foi dado no ano passado pela Casa Jorge Editorial, que publicou O Império Imóvel ou O Choque dos Mundos, em tradução de Cylene Bittencourt. Mas, por fascinante que seja, esse relato da expedição de lorde McCartney à China em 1792, se tudo nos revela sobre o mal crônico de um Império paralisado pela suspeita de todos contra todos, não nos diz muito sobre sua própria ligação com as concepções mais gerais de seu autor sobre a natureza e o funcionamento da sociedade humana, das quais é a exemplificação fundada no estudo meticuloso de um caso particular. Por isso ou pela proverbial letargia que a acometeu desde há quatro décadas, a imprensa cultural nem sequer registrou a edição dessa obra-prima da ciência histórica, onde o rigor do método, em vez de ostentar-se na língua de chumbo do pedantismo universitário, se oculta elegantemente sob um estilo narrativo animado, pulsante e cinematográfico.
Coincidência ou não, o próprio autor não começou por expor suas concepções, mas por exemplificá-las num caso concreto, o do seu próprio país. Le Mal Français, publicado em 1976, tornou clássico o retrato da uma nação roída pela suspicácia, sempre em busca de um governo forte que a proteja de si mesma e de um líder golpista ou revolucionário que a proteja do governo forte. Les Chevaux du Lac Lagoda, em 1981, demonstrava as raízes ideológicas e culturais da criminalidade juvenil, que aqueles mesmos que as plantaram buscavam ocultar sob um discurso convencional contra o sistema econômico (já vimos esse filme, não vimos?). Nesses e em outros trabalhos, ora partindo do exemplo francês, ora do chinês (que conheceu de perto como chefe, em 1971, da primeira missão oficial do Ocidente ali admitida durante os anos da Revolução Cultural), Peyrefitte foi traçando o perfil histórico, sociológico, político e administrativo da "sociedade de desconfiança", o Leviatã paralisado pela malícia e por dúvidas paranóicas a respeito de si mesmo.
Foi só em 1995 que a teoria subjacente a essas análises apareceu com todas as letras, primeiro numa explosiva série de conferências no Collège de France, Du "Miracle" en Économie, e logo em seguida na obra magna, La Societé de Confiance, publicada pelas Éditions Odile Jacob e imediatamente celebrada como acontecimento de primeira grandeza por Pierre Chaunu, Alain Touraine, Jacques Le Goff, Raymond Boudon e muitos outros. (Alertado pelo embaixador Meira Penna, li essa obra e convenci a Faculdade da Cidade a publicá-la em tradução - também de Cylene Bittencourt -, que estará nas livrarias numa das próximas semanas.)
A teoria começava por prosseguir as investigações célebres de Max Weber sobre capitalismo e protestantismo e por contestar seus resultados. O surto de progresso capitalista nos países protestantes, contemporaneamente freado nos católicos, não foi devido predominantemente a fatores religiosos, mas a fatores culturais mais amplos que determinaram a diferente atitude de católicos e protestantes ante a economia moderna. A diferença era radical: do lado católico, a desconfiança generalizada que clamava por mais controle, mais policiamento, mais burocracia, mais punições. Do outro, uma confiança pujante que estimulava a criatividade, a variedade, a iniciativa. Confiança, em primeiro lugar, dos homens uns nos outros: por que supor que o nosso próximo quer o nosso mal e não apenas, como todos nós, o seu próprio bem? Por que não acertarmos as coisas entre nós e ele, em vez de chamar um terceiro para nos policiar a todos? Eis a base de toda negociação, de todo contrato, de toda eficácia. De outro lado, confiança no poder que cada homem tem de decidir, de agir, de lutar por um destino melhor conforme seu próprio entendimento, livre de uma autoridade acachapante que imponha a todos a camisa-de-força de uma noção padronizada do "melhor".
Essa diferença surge, primeiro, nas idéias, na fantasia, na cultura. Depois consolida-se em leis e costumes. Por fim, dá frutos na economia: riqueza, progresso, desenvolvimento.
O protestantismo contribuiu, sim, para esse resultado, mas menos por suas concepções teológicas e morais explícitas enfatizadas por Weber - predestinacionismo, ética da poupança - do que pelo simples fato de estimular a liberdade e a variedade, livre do peso excessivo de uma velha burocracia controladora. E se enquanto isso o catolicismo atrasava o desenvolvimento econômico em outras partes do mundo, também não foi por causa do conteúdo de sua fé, em si mesmo neutro economicamente, mas simplesmente porque a hierarquia, assustada, em vez de superar criativamente as oposições, se enrijeceu numa atitude paranoicamente defensiva que só pensava em mais controle, mais centralismo, mais burocracia. Em certos países o desenvolvimento econômico foi favorecido pela ausência de controles. Em outros, não foi apenas desfavorecido: foi detido, foi proibido, foi estrangulado no berço por autoridades que o confundiram, tragicamente, com os demônios que o cercavam. Na Espanha, em Portugal, na Itália e parcialmente na França, o desenvolvimento não foi nunca um inimigo da Igreja: foi o bode expiatório das culpas católicas e anticatólicas. Ao condená-lo, o catolicismo fez um tremendo mal a si mesmo, do qual procura agora redimir-se. Mas exagerando na expiação, cai no extremo oposto, a adesão aos progressismos de esquerda, que, como sempre acontece com os opostos, o leva de volta ao erro originário: o culto do centralismo inibidor, agora em versão socialista.
A tese é tão patente, tão óbvia, que o ouvinte não resiste a se perguntar: "Por que não pensei nisso antes?"
A própria tese responde: não pensamos nisso porque estávamos infectados de materialismo histórico, que nos punha na pista falsa. Buscávamos as causas econômicas primeiro e nos recusávamos obstinadamente a investigar outras hipóteses, mesmo quando a perseverança no dogma nos obrigava a apelar a explicações mutuamente contraditórias: a Inglaterra desenvolveu-se porque tinha carvão; o Japão, porque não tinha carvão. Como enfeitiçados, projetávamos em causas externas a responsabilidade de nossas ações, e não víamos em parte alguma a causa mais óbvia de tudo o que nos acontece: as decisões humanas, fundadas em crenças e valores.
O presente que a obra de Peyrefitte faz à humanidade é múltiplo e de uma riqueza incalculável: ensina-lhe as condições do desenvolvimento econômico, reúne os materiais históricos que as demonstram, desvela-lhe o único obstáculo real, que reside em sua própria alma, mostra-lhe os meios de superá-lo, alivia os antagonismos religiosos que a paralisam e, de quebra, liberta-a da mais opressiva e esclerosante de todas as obsessões: o materialismo histórico, o determinismo econômico.
Não há, nos meios intelectuais europeus, quem não tenha, mesmo a contragosto, alguma gratidão a esse desbravador da floresta das idéias. Só alguns americanos ainda se fazem um pouco de desdenhosos, inconformados talvez de que um latino tenha compreendido o capitalismo melhor que eles.
Se o Brasil for esperto, não há de empinar o narizinho, fazendo-se de superior, em vez de sentar e ouvir com humildade uma lição que é para o bem de todos e a felicidade geral das nações.
CONFIANÇA: É UMA BELA PALAVRA,
TALVEZ A MAIS BELA, JUSTAMENTE PORQUE
NÃO É SOMENTE UMA PALAVRA
Entrevista com ALAIN PEYREFITTE
- Um de seus primeiros ensaios já trazia o título O Sentimento de
Confiança. Foi publicado em 1947. Você teve experiências pessoais, de
infância ou de juventude, que despertassem sua atenção para a importância
decisiva da confiança nas relações humanas?
A idéia de que a confiança é a condição primeira de todo desenvolvimento
humano não é uma hipótese escolar. Portanto ela não saiu do meu cérebro
como Atenas nasceu inteiramente armada do cérebro de Zeus. E não se trata
de uma experiência privilegiada, reservada a alguns. A importância da
confiança nas relações humanas é tal que, de um modo ou de outro, todo
mundo se defronta com ela desde a primeira infância. Desde que que vem
ao mundo, o homenzinho se vê confiado a seus pais, a educadores, a médicos.
A confiança que lhe dão ou lhe recusam, aquela que ele ganha em si mesmo,
aquela que ele concede aos outros, em suma, o clima de desconfiança ou
de confiança no qual ele evolui constitui o elemento vital do seu desenvolvimento.
O aprendizado da autonomia e da responsabilidade é a descoberta paralela
da autoconfiança e da confiabilidade do outro. Essa descoberta, é claro,
não é necessariamente explícita. Alguém é consciente do ar que respira?
A confiança, como o ar, é de tal maneira vital que só notamos sua importância
quando ela começa a faltar. A desconfiança tinha envenenado o fim da IIIa.
República. A França traía a confiança de seus compatriotas, mas também
a de seus aliados. Foi talvez a falência do meu país, surdo ao apelo tchecoslovaco,
e a falsa confiança inspirada nos acordos de Munique que me revelaram
a importância capital da confiança.
Sem dúvida, meus pais, professores que amavam apaixonadamente seu ofício
e seus alunos, haviam despertado em mim a confiança nas virtudes do trabalho,
da lealdade, da constância. Mas creio de fato que foram os dramas da nossa
nação que me serviram de despertador. E, depois, houve de Gaulle: aquele
que forçou o destino por uma confiança sobre-humana na França e na liberdade,
aquele que, no pior momento do desastre, acreditou na inversão da derrota
em vitória.
Pergunto-me de Franz Rosenzweig, que você cita, não buscou sua concepção
da confiança justamente no inferno das trincheiras, por uma espécie se
sobressalto salutar, ao ver que o humano, sob a chuva de bombas, se via
reduzido a uma matrícula obediente a ordens sem apelo e fórmulas inautênticas.
Ora, a confiança não é uma fórmula vazia: é um gesto unido à palavra,
um ponto de apoio e de partida, ao mesmo tempo estável e dinâmico. Confiança:
é uma bela palavra, talvez a mais bela, justamente porque não é somente
uma palavra.
TODA POLÍTICA DIGNA DO NOME EXIGE CONFIANÇA NAQUELES QUE A DIRIGEM
- Carl Schmitt definia a política como a confrontação amigo-inimigo,
acima de todos os valores que lhe servissem de pretexto. Sob esta perspectiva,
uma "política de confiança" não poderia ser senão uma contradição
de termos. Como você define a política?
Carl Schmitt exaltou a confrontação amigo-inimigo a um ponto que me parece
inaceitável. Veja-o citar Saint-Just: "Entre o povo e seus inimigos,
nada há em comum, exceto a glória." Para Carl Schmitt, o mal é irremediável:
a confrontação armada é ao mesmo tempo uma razão e um meio de viver. Ele
chegou a escrever, em 1947, quando, na prisão, aguardava um eventual julgamento
em Nuremberg: "Infeliz de quem não tem inimigo."
Schmitt fez da guerra uma fatalidade, não no sentido maltusiano onde
"uma boa guerra nos viria a calhar", mas num sentido providencial,
quase teológico. Foi na Teologia Política que ele escreveu: "Não
se poderia eliminar do mundo a inimizade entre os homens proibindo-se
as guerras moda antiga entre Estados, propagando uma revolução mundial
e tentando transformar a política mundial em polícia do mundo." Sem
dúvida ele tinha em vista o fracasso da Sociedade das Nações e de seu
pacifismo irresponsável. Mas parece-me inteiramente perverso pensar a
política internacional em termos necessariamente conflituais.
Defino a política como a mobilização das energias individuais em torno
de um objetivo comum. Toda política digna deste nome supõe uma confiança
naqueles que a dirigem. Uma política internacional não merece o nome de
política se não visa a uma forma de cooperação em vista de um objetivo
comum e proveitoso para todos - o que não exclui de maneira alguma uma
sã concorrência no manejo dos meios de atingi-lo. De outra maneira, a
política não é senão uma guerra larvada, e a guerra, segundo o dito de
Clausewitz, a continuação da política por outros meios - continuação inevitável
e mesmo, em si, necessária do ponto de vista de Schmitt.
O VERDADEIRO LIAME POLÍTICO É O DA CONFIANÇA-ESPERANÇA,
A CONSTRUÇÃO DE UMA OBRA COMUM
A CONSTRUÇÃO DE UMA OBRA COMUM
- Ainda sob esse ponto de vista, Hobbes dizia que o Estado nascera
do medo, ou, o que dá na mesma, da desconfiança. Hobbes enganou-se ou
o advento desse fenômeno novo chamado "desenvolvimento" traz
uma mudança na natureza mesma do Estado?
Carl Schmitt jamais escondeu sua admiração por Hobbes. Em A Noção do
Político, ele o chama "um grande espírito político" e proclama
sua adesão à concepção hobbesiana de um estado de natureza que conduz
à guerra de todos contra todos: bellum omnium contra omnes. O raciocínio
de Hobbes repousa sobre dois princípios, cujo desenvolvimento Schmitt
admirava: 1o., cada um tem um direito ilimitado em tudo o que ele deseja;
2o., os homens têm uma inclinação natural a prejudicar-se uns aos outros.
Daí resultam "suspeitas e desconfianças contínuas" (De Cive,
I:XII), donde a guerra perpétua. Só o medo de morrer (timor mortis), o
temor pelo próprio corpo (bodily fear) impelem os homens ao desarmamento
e à conclusão de um pacto. Hobbes pretende que desse pacto possa nascer
uma confiança mútua. Mas ele reconhece a precariedade dela. A confiança,
para ele, não passa de uma desconfiança desarmada. É confiança por deficiência,
porque não há mais nada a temer.
O verdadeiro liame político é o da confiança-esperança, a construção
de uma obra comum, o desenvolvimento de um empreendimento concertado,
no qual os atores têm um sentimento de ganhar, e não somente de salvar
a pele. O pressuposto da doutrina de Hobbes é sem dúvida a idéia de penúria
relativa, que obriga os homens a pactuar se não quiserem se matar uns
aos outros. Mas o verdadeiro móvel da associação humana deve ser, como
você o sugere, a esperança de um desenvolvimento, de um aumento dos recursos
e dos serviços, graças à cooperação contratual de iniciativas livres,
inovadoras e responsáveis. É mais para o lado de Locke que para o de Hobbes
que se encontrarão os fundamentos de uma política de confiança.
É SEMPRE DOS INDIVÍDUOS QUE SE FAZ ABSTRAÇÃO, PARA AFOGÁ-LOS
NUMA ESTATÍSTICA GERAL
NUMA ESTATÍSTICA GERAL
- Aquele que teve a coragem de enfatizar a ação do indivíduo na produção
da História não pode senão enfocar as "causas" e as "leis"
da História como uma espécie de ídolo ao qual os homens atribuem magicamente
a autoria de suas próprias ações. Você está de acordo com Eric Voegelin
quando ele diz que o hegelianismo e o marxismo são formas de "magia
negra", uma auto-alienação dos poderes do homem às potências abstratas?
De todos os cultos destrutivos, o mais perverso é o culto da abstração.
E é sempre dos indivíduos que se faz abstração, para afogá-los numa estatística
geral, numa configuração de conjunto, numa análise estrutural. Não nego
os serviços prestados pela história serial, pela história quantitativa,
pela avaliação estatística. Todas essas técnicas permitem afinar a descrição
dos fenômenos sociais e econômicos. Mas não fornecem a explicação deles.
Nem o advento do Espírito Absoluto, nem o movimento do conceito, nem a
luta de classes, nem a lei da baixa tendencial da taxa de lucro explicam
o que quer que seja.
Marx pretendia ter recolocado em pé a dialética hegeliana, desembaraçada
da sua ganga mística. E, no entanto, a superstição teórica não é menor
em Marx que em Hegel. Lembre-se, por exemplo, de que a expropriação da
burguesia, que explorou o trabalhador independente, é concebida como uma
"negação da negação" e se produz, segundo Marx, "com a
mesma necessidade que preside às metamorfoses da natureza". Não estou
seguro de que Hegel teria investido nesse necessitarismo tanto quanto
Marx. Não esqueçamos que Hegel era um grande leitor de Adam Smith. Suas
Lições sobre a Filosofia da História desvelam, no meio das astúcias intermináveis
da razão, a audaciosa iniciativa do indivíduo humano.
- Em A Sociedade de Confiança, você disse que a encíclica Mater et
Magistra trouxe o reconhecimento da iniciativa individual na promoção
do desenvolvimento. Por que então o pontificado de João XXIII e o Concílio
Vaticano II acabaram por favorecer de tal modo as correntes esquerdistas
e socialistas da Igreja?
Na Mater et Magistra, afirma-se, principalmente, que tudo no mundo econômico
resulta da iniciativa pessoal dos particulares, quer ajam individualmente
ou associados de diversas maneiras para a busca de interesses comuns.
Sua exaltação do "gênio criador dos indivíduos" contrastava
evidentemente com o modelo estruturalista que então estava no apogeu.
Mas, como o magistério mencionava o princípio da destinação universal
dos bens, e como ele condenava a injusta repartição dos meios de produção,
a reivindicação da "iniciativa pessoal e autônoma em matéria econômica"
acabou sendo obliterada em proveito de uma teologia da libertação que
consistia, de fato, em libertar-se de toda teologia. A Igreja julgou inútil
reiterar sua condenação do materialismo histórico. Mas não se tratava
de um silêncio de aprovação. Evidentemente, os apóstolos do marxismo cristão
compreenderam de outra forma: "Quem cala, consente." E a púrpura
cardinalícia foi enrolada à força sob a bandeira vermelha.
O MATERIALISMO DAS NEUROCIÊNCIAS INDICA QUE OS CIENTISTAS
TÊM MEDO DA INICIATIVA INDIVIDUAL.
TÊM MEDO DA INICIATIVA INDIVIDUAL.
- O materialismo histórico, desmoralizado enquanto teoria, permanece
muito forte enquanto pressuposto inconsciente entre os intelectuais. Na
sua opinião, isso ainda vai durar?
É espantoso ver o materialismo sobreviver aos desmentidos sangrentos
que lhe são infligidos pela história e pela ruína material das sociedades
que ele construiu, quer dizer, destruiu. Mas o prestígio do materialismo
ainda está intacto entre os intelectuais. Seu poder simplificador continua
a fascinar os espíritos: ele é sedutor porque é redutor. Certamente, ninguém
mais ousa falar abertamente de forças produtivas e de relações de produção,
das contradições dialéticas do capital e da luta de classes. Mas, na construção
do mercado mundial, não se fala senão de estruturas, de instituições,
de uniformização. Similarmente, o desenvolvimento das neurociências numa
direção estritamente materialista indica o medo que os cientistas têm
da capacidade de iniciativa do indivíduo. Queira-se ou não, são os homens
que fazem a história, e não ela que os faz. Mas uma moda intelectual,
corrente nas ciências humanas, considera esta asserção uma heresia. Se
nos abandonássemos a essa moda, essas ciências não teriam de humanas senão
o nome. Deveríamos chamá-las ciências da matéria humana.
Parece que Bergson explicou muito bem essa tendência da inteligência
humana à rigidez geométrica, essa predileção pelos organogramas impessoais,
essa recaída da energia espiritual na inércia material.
O MANIQUEÍSMO AINDA TEM BELOS DIAS PELA FRENTE
- A força persuasiva do materialismo histórico sendo devida em grande
parte à impregnação do imaginário coletivo pelas artes e espetáculos (o
"Titanic" acaba de explicar pela luta de classes o naufrágio
da civilização), não lhe parece que uma nova visão das coisas permanecerá
ineficaz enquanto não influenciar a mentalidade dos artistas?
Você acredita mesmo que O Encouraçado Potemkin ou os Coros do
Exército Vermelho tenham contribuído para impregnar nos espíritos as teses
do materialismo histórico? A última cena do Potemkin exalta a contingência
da livre adesão fraternal à Revolução. Quanto aos Coros do Exército Vermelho,
eles cantam os feitos de Tchpaiev ao transpor o Ural, ou os de Kutusov
diante dos exércitos de Napoleão. Eles se exibem no mundo inteiro: são
uma das raras instituições que sobreviveram ao regime comunista. São belas
vozes de baixos em uniforme: mas não são argumentos em favor da dialética
do marxismo-leninismo. Creio antes que a força persuasiva do materialismo
histórico está em todos os espíritos, em estado de latência, Ela exprime
a segurança de um esquema inelutável, o culto da ciência que se pretende
"pura", o mito da infalibilidade, o medo da inovação, e, no
fim das contas, a tendência à desconfiança. Não nego que cineastas e romancistas
se deleitam nos enredos da luta de classes. Mas será por culpa deles que
o público ainda os aprecia? O maniqueísmo ainda tem belos dias pela frente.
SOMOS TODOS MATERIALISTAS HISTÓRICOS INCONSCIENTES
- O liberalismo, vencedor no campo econômico, não corre o risco de
naufragar se a cultura permanecer sob a hegemonia socialista? O liberalismo
não estará caindo vítima de um materialismo histórico inconsciente?
Sua sugestão é sutil e subscrevo-a de bom grado. Somos todos, em diversos
graus, materialistas históricos inconscientes. Aderimos espontaneamente,
mesmo quando somos persuadidos do contrário, à tese do primado da infra-estrutura
econômica e material sobre a superestrutura cultural e espiritual. Esta
tendência inata ao fatalismo oferece uma segurança intelectual e um álibi
contra a exigência de responsabilidade e o desafio da adaptação contínua.
Novamente, a hegemonia cultural socialista não é, em si mesma, uma fatalidade.
É preciso crer que o público das democracias encontra alguma satisfação
nela e alivia, por esse meio, um forte sentimento de culpabilidade em
relação às responsabilidades que não foram assumidas. Privada de seu inimigo
hereditário (o comunismo), a economia de mercado deve gerir sozinha a
criação e a partilha de riquezas. Ela deve enfrentar o desafio de um desenvolvimento
humano e eqüitativo, fundado em iniciativas livres e competitivas.
O LIBERALISMO ECONÔMICO NÃO PODE SOBREVIVER SEM UM LIBERALISMO CULTURAL
- Na mesma linha de pensamento: não será um erro trágico supor que
a liberalização da economia seja a condição necessária e suficiente de
todas as outras liberdades? Não é concebível que um Estado possa ser liberal
em economia e ditatorial e tudo o mais? Por exemplo, nos Estados Unidos
o liberalismo é hegemônico em economia, o estatismo recua, mas é crescente
a intervenção do Estado na vida privada dos cidadãos.
O estruturalismo de inspiração marxista formulou, na esteira de Ernest
Labrousse, uma nova "lei dos três estados": o Econômico comanda
o Social, e o Social comanda o Mental. Se fosse assim, bastaria liberalizar
a economia para liberalizar a sociedade e a cultura. Você cita, com razão,
o exemplo dos Estados Unidos.
Pode-se dizer que os Estados Unidos são "libertários" (libertarian)
no plano econômico, mas "comunitários" (communitarian) no plano
social. Tudo se passa como se o extremo desregramento do emprego, dos
preços, dos salários fosse compensado pelo acréscimo de controle social.
A profecia de Tocqueville confirma-se portanto com uma precisão espantosa.
Como atores da vida econômica, os americanos "giram sem repouso em
torno de si mesmos para obter pequenos e vulgares prazeres... Cada um
deles, retirado num canto, é como que estranho ao destino de todos os
outros: seus filhos e seus amigos particulares formam, para ele, toda
a espécie humana. Quanto às privações por que passam seus concidadãos,
ele está ao lado deles, mas não os vê". Em contrapartida, como cidadãos
dos Estados Unidos, eles estão submetidos a um "poder imenso e tutelar,
que se encarrega sozinho de assegurar o seu poder e velar sobre a sua
sorte, não buscando senão fixá-los irrevogavelmente na infância"
(Da Democracia na América, T. II, parte 4, cap. 6).
Na China, temos outro caso do lema "Economia primeiro", para
evitar que a expressão cultural e psicológica das frustrações materiais
acumuladas em quarenta anos de comunismo comprometa a passagem progressiva
e prudente a uma liberalização cultural. As "Cem Flores" tornaram
os chineses prudentes. Mas, ao contrário do que se passa nos Estados Unidos,
o controle social drástico vai afrouxando progressivamente, ao passo que
nos Estados Unidos assistimos a uma regressão quase infantil.
Em todos os casos, o liberalismo econômico não pode se expandir e sobreviver
sem um liberalismo cultural e psicológico, isto é, sem uma cultura e um
clima de confiança: confiança na competição de iniciativas responsáveis,
confiança na mobilidade intelectual, geográfica, profissional, aposta
na adaptação, na inovação, nas trocas.
A IDEOLOGIA GAY EXPRIME UMA DESCONFIANÇA ANTE O OUTRO SEXO
- As novas correntes de opinião que cresceram depois da última Guerra
Mundial (feminismo, negritude, ideologia gay, etc.) não são de
natureza a favorecer antes a desconfiança do que a confiança?
Essas novas correntes de opinião nasceram do choque de duas guerras mundiais.
A emancipação das mulheres, por exemplo, começou no dia seguinte da Primeira
Guerra: enfermeiras e operárias do armamento não queriam voltar para casa
como se nada tivesse acontecido. Do mesmo modo, as colônias africanas
solicitadas pelo esforço de guerra tomaram consciência de que seus "deveres"
implicavam o reconhecimento de "direitos". A descolonização
é o produto das duas guerras.
Mas, ao lado dessas justas reivindicações, ou no seu seio mesmo, exprimem-se
tendências ao encolhimento, à vontade de cada um ser ele mesmo sem o outro,
de ficar "entre os seus", sem mistura, sem capacidade de integração,
sem esforço de adaptação. É uma reação comparável à regressão endogâmica
que afeta certas sociedades "primitivas".
Pode se perguntar se a ideologia gay que se diz tolerante, aberta, etc.,
não exprime, em muitos casos, uma desconfiança ante o outro sexo, um medo
da diferença sexual. A verdadeira confiança, em contrapartida, não é nem
confinamento em si nem fusão e perda de si.
TANTO FAZ MATAR INOCENTES EM NOME DO PROLETARIADO OU DA RAÇA SUPERIOR
- Uma coisa que me espantou muito desde que cheguei à França na semana
passada, é que todo o mundo parece associar muito facilmente o Front Nacional
do Sr. Le Pen à história dos crimes nazistas, enquanto se obstina em não
fazer nenhuma associação análoga entre a extrema esquerda e os crimes
incomparavelmente maiores do regime comunista na URSS, na China, etc.
Por que é tão fácil ser esquerdista sem jamais ser responsabilizado pelos
males do stalinismo enquanto todo o homem de direita está sempre sob o
risco de ser associado ao neofascismo? Por que é tão fácil atrair a desconfiança
contra os homens de direita?
A fascinação dos intelectuais pela ideologia marxista introduziu dois
pesos e duas medidas na avaliação dos crimes contra a humanidade. Fazem
como se os milhões de homicídios perpetrados pela União Soviética não
fossem da mesma natureza que os cometidos pela Alemanha nazista.
Torturar e matar um inocente em nome do proletariado ou da raça superior,
não deveria ter nenhuma diferença. Parodiando uma fórmula célebre, poder-se-ia
dizer que mais vale errar com Stalin que com Hitler. No entanto, a biologia
ariana e a biologia soviética são imposturas do mesmo nível. E mesmo supondo-se
que o marxismo-leninismo fosse "cientificamente superior", nenhum
saber, nenhum programa justifica a eliminação física ou moral de um só
indivíduo. É tempo, como o diz Hannah Arendt, de compreender que os extremistas
de direita e de esquerda estão solidários no crime.
Voltando aos sobressaltos da política francesa, deve-se sublinhar a evidente
má-fé de uma esquerda que se faz de virgem assustada pelas "vozes
do Front Nacional", quando ninguém se comove com as vozes do PC,
sem falar da extrema esquerda ainda mais dura. Reconheçamos, todavia,
que as declarações turvas, talvez perversas do presidente do FN sobre
as desigualdades das raças, sobre o "detalhe" dos crematórios,
a posição flutuante que ele mantém entre o legítimo controle da imigração
e um desencadeamento de funções xenófobas, tudo isto favorece a associação
do FN à história dos crimes nazistas.
- De modo mais geral: se a direita aceita renunciar a toda aliança com
a extrema direita enquanto a esquerda conserva seu direito de fazer alianças
com quem quer que seja (até mesmo com a extrema direita), a direita não
estará em vias de cometer suicídio? Que será da política francesa amanhã,
na sua opinião?
As eleições regionais e cantonais de 1998 se desenrolaram numa atmosfera
de armadilhas e de chantagem. A esquerda chegou a intimidar a direita
e a lhe ditar seu comportamento face aos eleitores. Ela pretendeu dar
lições de republicanismo brandindo o FN como um espantalho (ela, que sempre
traficou o modo de escrutínio para dividir a direita, favorecendo o FN).
É urgente sair dessa lógica das alianças e dos casamentos de ocasião,
desses anátemas republicanos e dessas excomunhões.
As direitas podem e devem se reunir. Elas são majoritárias no país. Elas
devem reconquistar para um programa de direita toda a sua base eleitoral,
incluindo os eleitores do FN, que não pertencem nem à esquerda que se
serve deles para desacreditar a direita, nem à direita clássica que precisa
de seus votos. Os eleitores que votaram no FN só pertencem a si mesmos.
Se eles sucumbem às sereias do racismo e da xenofobia, não queremos o
seu apoio. Se eles aceitam uma política de direita que respeite os direitos
humanos, devemos propô-la. A exasperação deles é tão respeitável quanto
a cólera dos partidários da Liga Comunista Revolucionária. A única saída
para a política francesa é suspender o anátema que pesa sobre os eleitores
do FN e apresentar-lhes uma verdadeira política de direita, sem ódio nem
vingança, uma política de exigência, de respeito, de solidariedade e de
empreendimento, em suma: uma sociedade de confiança.
COMUNISMO E NAZISMO EXPLORARAM O RESSENTIMENTO
DAS MINORIAS ÉTNICAS
DAS MINORIAS ÉTNICAS
- A confiança não terá entre seus pressupostos indispensáveis a unidade
ou a coerência da cultura, isto é, dos sentimentos e valores? Como você
enfoca uma política de confiança nas condições do "multiculturalismo"?
A confiança é ao mesmo tempo causa e efeito da coesão cultural. Sem língua
comum, sem valores compartilhados, sem pontos de referência coletivos,
nada de confiança. Mas, sem confiança, os pontos de referência desabam,
os valores divergem em função de interesses particulares. A língua mesma
cessa de ser um instrumento de transmissão e de coesão, para se tornar
um critério de segregação, talvez de exclusão. Ela era uma via de comunicação:
torna-se uma barreira. Nossos sociólogos descreveram esse fenômeno de
esclerose, ao qual eles próprios cederam. Em Ce Que Parler Veut Dire ou
em La Réproduction, Pierre Bourdieu pôs em evidência o papel discriminante
dos usos lingüísticos, mas o fez numa língua que, ela mesma, raramente
é acessível ao comum dos mortais...
Ele deveria ter tirado daí a conclusão que se impõe: a perda, num povo,
de sua identidade nacional, constitui uma ameaça à indispensável confiança
social. As experiências de bilingüismo oficial mostraram que não se troca
de cultura como se troca de camisa.
Goethe dizia que quem não conhece língua estrangeira não conhece verdadeiramente
a língua materna. Creio nisso também. Mas o contato e o intercâmbio com
o outro não implicam a fusão, a intercambiabilidade, a indiferenciação.
Aliás, o universalismo forçado prepara o leito dos separatismos, das reivindicações
agressivas, como o mostraram as ex-federações das Repúblicas socialistas.
Não esqueçamos que Stalin começou sua funesta carreira como comissário
das nacionalidades, nem que o regime nazi explorou sistematicamente as
frustrações das minorias étnicas.
As etnias são como o Etna. Parecem ter perdido todo caráter vital, e
sua atividade parece reduzir-se a alguns números folclóricos, sobrevivências
de um longínquo passado de erupções e de conflitos. Mas, tente-se extinguir
essas manifestações de superfície, e elas voltam com toda a força, vomitando
lavas ardentes. O cosmopolitismo, quando perde o respeito pela alma dos
povos, parece-se com um edifício construído sobre a boca de um vulcão.
O concerto das nações deve permanecer uma polifonia, onde muitas vozes,
de timbres variados, se juntam e se superpõem em ritmos diferentes mas
harmonizados, onde os refrões e as coplas se respondem de parte a outra.
Uma monotonia forçada engendraria a dissonância e a discórdia. O uníssono
forçado produz a desunião.
É preciso portanto levar a sério o multiculturalismo. Longe de ser um
obstáculo que se deve pulverizar, ele poderia bem constituir um ponto
de apoio necessário à Organização das Nações Unidas, como o pressentiu
Claude Lévi-Strauss. Unidas não quer dizer uniformes, nem reduzidas ao
idêntico. O mito de uma identidade universal revela-se tão perigoso quanto
a cultura sistemática dos particularismos locais.
Ninguém detém o monopólio do humano, e sobretudo não a detém nenhuma
instituição que pretenda representar as aspirações de todos os homens,
sem pedir a opinião deles.
A NOVA ORDEM MUNDIAL: BUROCRACIA EM CIMA, CAOS E BANDITISMO EM BAIXO
- Num mundo em que as organizações criminosas como a máfia russa expandem
por toda parte uma atmosfera de segredo e de conspiração, enquanto por
outro lado vai se constituindo algo como um Estado mundial, ou ao menos
uma polícia global para enfrentá-las, os fatores de desconfiança não tendem
a se tornar incomparavelmente mais fortes que os fatores de confiança?
Como você enfoca uma sociedade de confiança em escala mundial?
A nova ordem mundial arrisca muito parecer-se a um edifício muito instável.
Na superfície e em altura, uma burocracia universalista segura da exatidão
de seus planos. Mas, nos porões do edifício, uma rede subterrânea de lutas
de influências, de mercados clandestinos.
A única alternativa ao desenvolvimento do banditismo é a aplicação vigilante
do princípio de subsidiariedade; a recusa de concentrar a organização
da sociedade, das trocas, dos preços agrícolas, a um nível muito elevado.
A confiança é vivida na relação bilateral de troca de bens e de serviços,
no respeito das especificidades locais. Ela não se decreta pelo alto,
pois a confiança não se ordena. É ela que ordena tudo.
É a partir de micro-sociedades de confiança - empresas, associações culturais,
grupamentos de interesses econômicos, que se edifica uma sociedade de
confiança em escala mundial - e não ao inverso.
terça-feira, 23 de abril de 2013
O LIVRO DA VIDA - KRISHNAMURTI
O LIVRO DA VIDA
A história da humanidade está em você: a vasta experiência, os medos profundamente arraigados, as ansiedades, a dor, o prazer e todas as crenças que o homem acumulou através dos milênios. Você é esse livro. Ele não foi publicado por nenhum editor; não está à venda. Inútil ir a algum analista, porque o livro dele é o mesmo que o seu. Sem ler esse livro cuidadosa, paciente, hesitantemente, você nunca será capaz de transformar a sociedade em que vivemos, a sociedade que é corrupta, imoral. Existe muita pobreza, injustiça, e assim por diante. Qualquer pessoa séria estaria preocupada com o estado das coisas no mundo atual, com todo o caos a corrupção, guerra – o maior de todos os crimes é a guerra. Para produzir uma mudança radical em nossa sociedade e em sua estrutura, a pessoa tem que ser capaz de ler esse livro que é ela própria; e a sociedade em que vivemos foi criada por nós, cada um de nós, por nossos pais, avós e assim por diante. Todos os seres humanos criaram essa sociedade e, enquanto a sociedade não for transformada, haverá mais corrupção, mais guerra e destruição da mente humana. Assim, para ler esse livro que é a própria pessoa, é preciso aprender a arte de escutar o que o livro está dizendo. Escutar implica não interpretar. Apenas observar, como você observa uma nuvem. Não se pode fazer nada a respeito da nuvem ou das folhas da palmeira balançando ao vento, ou em relação à beleza do pôr-do-sol; não se pode alterá-los. Da mesma forma, é preciso aprender a arte de escutar o que o livro está dizendo. O livro é você; ele revelará tudo.
Há outra arte, a da observação, a arte de ver. Quando você lê o livro que é você mesmo, não existem você e o livro. Não existe o leitor e o livro separado. O livro é você.
Há ainda outra arte, a arte de aprender. Os computadores podem aprender; eles podem ser programados e repetirão aquilo que lhes foi ordenado. Primeiro nós experimentamos, acumulamos conhecimentos, e os armazenamos no cérebro; então o pensamento nasce sob a forma de memória e segue-se a ação. Dessa ação você aprende. Assim, aprender é acumular mais conhecimento. Isso é o que a mente que está atenta, desperta, está fazendo todo o tempo, como um computador. Experiência, conhecimento, memória, pensamento, ação – eis o que estamos fazendo todo o tempo, o que chamamos “aprender” – aprender com a experiência. Essa tem sido a história do homem – constante desafio e resposta a esse desafio. O livro é todo o conhecimento da humanidade, que é você.
Sei que vocês provavelmente são muito cultos, muito educados, mas estou expondo tudo isso em uma linguagem muito, muito simples. Entretanto, a palavra não é a coisa. Por favor, tenham isso em mente todo o tempo: a palavra não é a coisa. O símbolo nunca é o real. Desse modo, como eu disse, existe a arte de ver, a arte de escutar e a arte de aprender. O homem nunca é livre do conhecido; por isso, nosso aprendizado torna-se mecânico. A arte de aprender implica algo totalmente diferente. Aprender significa investigar os limites do conhecimento e mover-se. Agora, com esses três processos – escutar, observar, aprender – vamos juntos ler o livro da vida. Você está lendo o livro junto comigo; não estou lendo o seu livro. Estamos lendo o livro humano que é você, o orador e o resto da humanidade. Por favor, dê um pouco de atenção a isso. Se sabemos como ler o livro que somos nós mesmos, todos os conflitos e dores, chegam a um fim. Somente essa é a mente religiosa, não a que acredita; não a que executa todos os rituais, mas a que é livre. Tendo lido completamente o livro, é apenas essa mente que recebe a benção da verdade.
Qual o primeiro capítulo nesse livro?
É o seu livro, qual é o conteúdo desse capítulo? À parte a existência física, o organismo com todos os males do corpo: a doença, a preguiça, a morosidade, a falta de alimento apropriado, de nutrição conveniente – à parte tudo isso, qual é o primeiro movimento? Você pode ter olhado para o seu rosto, penteado o cabelo, empoado a face e tudo o mais, mas nunca olhou para dentro. Se olhar para dentro de si mesmo, você não se descobre um ser humano de segunda-mão? Pode ser bastante desagradável considerar-se um ser humano de segunda-mão. Mas estamos cheios de conhecimento de outras pessoas – o que alguém ou algum mestre ou guru disse, o que Buda disse, o que o Cristo disse, e assim por diante. Estamos cheios disso. Da mesma forma, se você foi à escola, faculdade ou universidade, lá também lhe foi dito o que fazer, o que pensar. Assim, se compreender que é um ente de segunda-mão, você poderá pôr isso de lado e olhar.
Acompanhe-me, por gentileza: a primeira observação é que vivemos em contradição, que não há ordem em nós. Ordem não é programação. É colocar tudo no lugar certo. Mas ordem implica algo muito maior que a disciplina mecânica de um hábito particular, ou de uma função normal. Desta forma, a pessoa descobre nesse livro, no primeiro capítulo, que vivemos uma vida extraordinariamente confusa, desordenada – querendo uma coisa e negando que a queremos, dizendo uma coisa e fazendo outra, pensando uma coisa e fazendo outra. Assim, há contradição constante. Onde há contradição, tem de haver conflito. Você está acompanhando o livro que é você mesmo vivendo de uma maneira desordenada, em perpétuo conflito. Esse conflito alastrou-se como ambição, realização, identificação com uma pessoa, um país, uma idéia, sem nunca viver com o real. Assim, vivemos em desordem – politicamente, religiosamente, em nossa vida familiar.
Temos de descobrir o que é ordem. O livro irá lhe contar, se você souber como lê-lo. Ele diz que você vive em desordem. Acompanhe-o, vire a próxima página. Então você descobrirá o que significa viver em desordem. Se uma pessoa compreende a natureza da desordem, não intelectual, ou verbalmente, mas de fato, o livro está dizendo: não traduza, não transforme isso num conceito intelectual, mas leia-o apropriadamente. Quando você o lê, ele diz que suas contradições existem, e elas só irão terminar se você compreender a natureza da contradição. Contradição existe quando há divisão como hindus e muçulmanos, judeus e árabes, comunistas e não-comunistas, esse constante processo divisório entre os vários tipos de Budistas, os vários tipos de Hindus, Cristãos e assim por diante. Onde há divisão, tem de haver conflito, que é desordem. Quando você compreende a natureza da desordem, dessa compreensão, das profundezas dessa compreensão da natureza da desordem, vem, naturalmente, ordem.
Ordem é como uma flor desabrochando naturalmente, e essa ordem, essa flor, nunca fenece. Sempre há ordem na própria vida quando se lê realmente o livro, que diz: onde há divisão, tem de haver conflito.
O próximo capítulo diz: enquanto você estiver funcionando centrado, rumo à periferia, tem de haver contradição. Isto é, enquanto estiver agindo de forma autocentrada, egoística, egocêntrica e personalisticamente, restringindo a totalidade dessa vida imensurável a esse pequeno “eu”, você inevitavelmente criará desordem. O “eu” é algo muito pequeno, criado pelo pensamento. O pensamento, o nome, a forma, a estrutura psicológica e a imagem que ela construiu de si mesma, dizem: “Eu sou alguém”. Enquanto existir atividade autocentrada, tem de haver contradição, tem de haver desordem. E o livro diz: não pergunte como não ser autocentrado. Quando você pergunta como, você está pedindo um método. Se você segue o método, essa é outra forma de atividade autocentrada. O livro está dizendo a você tudo isso, não eu. O orador não está traduzindo o livro. Estamos lendo-o juntos. Enquanto você pertencer a qualquer seita, grupo, religião, estará obrigado a criar conflito. Isso é difícil de engolir porque todos nós acreditamos em alguma coisa. Você acredita em deus, outro não; outro acredita no Buda, outro em Jesus, e o Islã diz existir alguma outra coisa. Assim, a crença produz divisão no relacionamento entre as pessoas. Não há necessidade alguma de crença quando você está unicamente preocupado com fatos – fato sendo aquilo que está realmente acontecendo em seu livro.
Então surge o problema de como ler o livro, se você está separado dele. Quando pega um romance ou uma novela de suspense, você lê como alguém de fora, virando as páginas, na companhia de toda excitante história, e assim por diante. Mas aqui o leitor é o livro. Ele o está lendo como se estivesse lendo uma parte de si mesmo; não está lendo um livro qualquer. O livro também diz que o homem tem vivido sob a autoridade – política, religiosa, do líder, do guru, do homem que sabe, do intelectual, do filósofo. Sempre se conformou com um padrão de autoridade. Por favor, escute muito cuidadosamente o que o livro está dizendo: existe a autoridade da lei – existe a autoridade do policial, de um governo eleito, do ditador. Não estamos falando desse tipo de autoridade. Estamos lendo a respeito da autoridade que a mente busca com o propósito de sentir-se segura.
A mente está sempre buscando segurança. O livro diz: quando você está buscando segurança psicológica, está inevitavelmente criando autoridade – a autoridade do sacerdote, da imagem, do homem que diz: “Sou iluminado, vou esclarecê-lo”. Assim o livro diz: livre-se de todo esse tipo de autoridade; o que significa: seja uma luz para você mesmo. Não dependa de ninguém para a compreensão da vida, para a compreensão desse livro. Para ler esse livro não deve haver ninguém entre você e ele – nenhum filósofo, nenhum sacerdote, nenhum guru, nenhum deus, nada. Você é o livro que está lendo. Portanto, deve haver libertação da autoridade do outro, seja a do marido ou a da esposa. Isso significa ser capaz de ficar sozinho.
O livro diz: você discutiu, leu o primeiro capítulo sobre a desordem, a ordem e a autoridade.
O próximo capítulo diz: vida é relacionamento; relacionamento em ação. Não somente com aqueles de quem é intimo: você está relacionado com toda a humanidade. Você é semelhante ao resto dos seres humanos, onde quer que eles vivam, porque eles sofrem, você sofre, e tudo o mais. Psicologicamente, você é o mundo e o mundo é você. Portanto, você tem tremenda responsabilidade. Então o livro diz no capítulo seguinte: o homem tem vivido com medo desde tempos imemoriais – medo, não somente da natureza, do ambiente, da doença, de acidentes e assim por diante, mas também as muito profundas camadas de medo, as profundas, inconscientes, inexploradas ondas de medo. Vamos ler o livro juntos até o capítulo e terminar e dizer: “Observe o medo e você será capaz de pôr fim a ele”. O livro outra vez pergunta, na página seguinte: que é medo? Como ele surge, qual a sua natureza? Por que o homem não resolveu o problema? Por que vive com ele? Acostumou-se a ele? Aceitou-o como forma de vida? Por que o homem, o ser humano, não solucionou o problema para que a mente seja totalmente livre do medo? Enquanto houver medo, você viverá na escuridão. E se sua adoração resultar dessa escuridão, ela será absolutamente sem sentido.
É muito importante penetrar mais fundo na natureza do medo. Como surge o medo? Da lembrança de coisas passadas – lembrança de alguma dor, de alguma coisa que você fez, que não devia ter feito; uma mentira que contou, não quer que seja descoberta e teme que o seja; uma ação que corrompeu sua mente. Você pode estar com medo daquela corrupção, daquela ação? Ou pode estar com medo do futuro, de perder um emprego, ou de não se tornar cidadão proeminente em um quintalzinho qualquer. Temos inumeráveis formas de medo. As pessoas têm medo do escuro, da opinião pública, da morte, de não se realizar – o que quer que isso signifique. E há o medo da doença; a pessoa pode ter muita dor física que fica registrada na mente e ela tem medo que volte. Assim o livro diz: siga em frente, leia mais; o que é medo? É ele criado pelo pensamento? É ele criado pelo tempo? Estou saudável agora, mas quando envelhecer ficarei doente e isso me assusta. Isso é tempo. Ou o pensamento diz: algo pode me acontecer, posso perder o meu emprego, ficar cego, perder minha esposa, o que quer que seja. É essa a raiz do medo? – o livro está perguntando. Assim você diz: vire a página e descobrirá a resposta você mesmo; não o orador. O livro diz que o pensamento e o tempo são fatores do medo. Que pensamento é tempo.
A página seguinte pergunta:
é possível à mente humana, a você que está lendo o livro que é você mesmo, ser completamente livre do medo, de tal forma que não haja mais o leve sopro de medo? O livro diz novamente: não peça um método. Métodos significam repetição, um sistema; o sistema que você inventar não dissolverá o medo, porque então você estará seguindo um sistema e não compreendendo a natureza do medo. Portanto, não busque um sistema, mas simplesmente compreenda a natureza do medo. Ele interroga: o que você quer dizer por compreender? Ou você compreende a construção verbal e o significado da palavra, o que é uma forma especifica de atividade intelectual, ou você vê a verdade. Quando você enxerga a verdade, então a coisa desaparece. Quando enxergar claramente, por si próprio, que o pensamento e o tempo são fatores do medo, não como uma afirmação verbal, mas como uma parte de você mesmo – em seu sangue, em sua mente, no seu coração, que o tempo é o fator – então verá que o medo não tem mais lugar, somente o tempo. Porque o medo foi criado pelo tempo. E pelo pensamento. Tenho medo do que possa acontecer, tenho medo de minha solidão. Nunca examino minha solidão – o que ela significa – mas tenho medo dela, o que significa que fujo dela; mas essa solidão é a minha sombra, ela me persegue. Não se pode fugir da própria sombra. Do mesmo modo, se você tiver a paciência da observação, que não é fugir, mas observar, olhar, escutar, ouvir o que o livro está dizendo, ele dirá que o tempo é o fator, não o medo; por isso você tem de compreender o tempo. Se compreender o tempo, talvez então não haja um fim para o medo.
O livro está pedindo a você para descobrir qual é a relação entre tempo e pensamento. Pensamento é um movimento do conhecido para o conhecido. É um movimento: as lembranças do passado encontrando o presente, modificando-se e seguindo adiante. Esse movimento do ontem para o hoje e para o amanhã é o movimento do tempo, através do nascer ao pôr-do-sol. Existe também o tempo psicológico. Conheci a dor, espero que ela não se repita, mas ela pode acontecer de novo – esse é o movimento do passado através do presente, modificando-se e deslocando-se em direção ao futuro. Existe o tempo medido pelo relógio. Existe o tempo interior: você espera ser; não é, mas espera ser; você é violento, mas espera ser não-violento. Você é ganancioso, invejoso, mas, através do tempo, através da evolução, espera que gradualmente se livrará disso. Conseqüentemente, tempo é um movimento a partir do passado e do presente em direção ao futuro. Pensamento também vem do passado – conhecimento, memória, movimento. Portanto, tempo é pensamento.
A próxima pergunta é muito mais difícil de responder. Você tem que ter paciência para ir mais longe. Estou usando a palavra “paciência” num sentido especifico: ausência de tempo. Geralmente paciência significa: vá devagar, seja paciente, espere um pouco, não reaja apressadamente, aquiete-se, tenha calma, dê ao outro a oportunidade de se expressar, e assim por diante. Não estamos usando a palavra “paciência” nesse sentido. Estamos dizendo que paciência significa esquecer o tempo de modo que você possa olhar, possa observar; mas se observar através do tempo, será impaciente. Pode ser que você precise ter paciência para ler o próximo capítulo. Tempo é o fator do medo. Pensamento é tempo. Enquanto o pensamento estiver funcionando, você está condenado a ter medo.
O capítulo seguinte indaga: existirá uma interrupção do tempo, o fim do tempo? O tempo é o fator maior em nossa vida – não sou, mas serei; não sei, mas saberei; não sei essa língua particular, mas aprenderei, dê-me tempo. O tempo curará nossas feridas. O tempo embota a sensibilidade. O tempo destrói o relacionamento. O tempo destrói a compreensão porque a compreensão é imediata: não “aprenderei a compreender”. Por isso o livro está dizendo que o tempo desempenha um papel extraordinariamente importante em nossa vida. Nossos cérebros evoluíram através do tempo. Não é seu cérebro, ou meu cérebro, mas o cérebro humano, a mente humana, que é você. Você identificou esse cérebro como seu cérebro, como sua mente; mas não é sua mente ou seu cérebro, mas o cérebro humano, que evoluiu através de milhões de anos. Você vê que o cérebro, que é condicionado pelo tempo, pode unicamente operar no tempo. Estamos pedindo ao cérebro para fazer algo totalmente diferente. O livro afirma que seu cérebro, sua mente, funcionam no tempo. O tempo desempenhou um papel importante em sua vida. Não é solução de problema algum, exceto problema tecnológicos. Não o use para solucionar um problema – entre você e a sua esposa, entre você e seu emprego, assim por diante. É muito difícil compreender isso. Por favor, consagre sua mente a isso, a ler o livro apropriadamente.
Assim o livro pergunta: pode o tempo acabar? Se você não puser um fim a ele, o medo prosseguirá, com todas as suas conseqüências. E o livro diz: não pergunte como dar-lhe fim. Você não pode perguntar a alguém como acabar com o medo; ele não leu o livro, ele lhe dará apenas uma teoria. Pergunto-me se você compreende isso. Essa é a verdadeira meditação. Meditar é inquirir se o tempo pode parar. O orador diz que pode e que isso acontece; o orador diz isso, não o seu livro. O orador afirma que o tempo termina. Mas se acreditar nisso, você não está lendo o seu livro, estará vivendo apenas de palavras, e viver de palavras não dissolve o medo. Por isso você tem de ler o livro do tempo – entrar nele e explorar a natureza do tempo, ver como você reage ao tempo, como seu relacionamento é baseado no tempo. Mergulhe nisso. Isso significa que conhecimento é tempo. Se você está usando o conhecimento como um meio de avanço, está aprisionado ao tempo e, portanto, o medo, a ansiedade e o processo inteiro seguem em frente. Para inquirir sobre a natureza do fim do tempo, requer-se uma mente silenciosa, uma mente livre para observar, não amedrontada, livre para observar o movimento do tempo em você mesmo, como você depende dele. Se alguém lhe dissesse que não existe tal coisa como a esperança, você ficaria horrorizado, não ficaria? Compreende o que estou dizendo? Esperança é tempo.
Assim, você tem de investigar a natureza do tempo e compreender que seu cérebro, sua mente e seu coração, que são um, estão funcionando no tempo. Eles estão condicionados ao tempo e, portanto, você está pedindo algo totalmente novo. Você está pedindo ao cérebro, e à mente, para funcionar de outra forma e isso requer grande atenção
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O que estou fazendo aqui ?!?
A Natureza do Eu - JOEL S. GOLDSMITH
Krishnamurti - Mentalidade Religiosa
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Celia
O importante é o ser e não o vir a ser; um não é o oposto do outro, havendo o oposto ou a oposição, cessa o ser. Ao findar o esforço para vir-a-ser, surge a plenitude do ser, que não é estático;
MAIS:
A SOBERANIA DA CONSCIÊNCIA http://conspiratio3.blogspot.com.br/2013/04/a-soberania-da-consciencia-voz-da-alma.html
VIDA E ÚLTIMA MENSAGEM DE KRISHNAMURTI http://conspiratio.blogs.sapo.pt/143883.html
DESCOBRINDO O SENTIDO DA VIDA
http://conspiratio3.blogspot.com.br/2013/08/descobrindo-o-sentido-da-vida.html
*
http://delinks.blogspot.com.br/