Redescobrindo o sentido da vida
Olavo de Carvalho
Primeira Leitura, novembro de 2005
Freud assegurava que,
reduzido à privação extrema, o ser humano perderia sua casca de
espiritualidade e poria à mostra sua verdadeira natureza, comportando-se
como um bicho. Victor Emil Frankl, psiquiatra, judeu e austríaco como
Freud, não acreditava nisso, mas não teve de inventar uma resposta ao
colega: encontrou-a pronta no campo de concentração de Theresienstadt
durante a II Guerra Mundial. Ali, reduzidos a condições de miséria e
pavor que no conforto do seu gabinete vienense o pai da psicanálise nem
teria podido imaginar, homens e mulheres habitualmente medíocres
elevavam-se à dimensão de santos e heróis, mostrando-se capazes de
extremos de generosidade e auto-sacrifício sem a esperança de outra
recompensa senão a convicção de fazer o que era certo. A privação
despia-os da máscara de egoísmo biológico de que os revestira uma moda
cultural leviana, e trazia à tona a verdadeira natureza do ser humano: a
capacidade de autotranscendência, o poder inesgotável de ir além do
círculo de seus interesses vitais em busca de um sentido, de uma
justificação moral da existência.
Uma recente viagem a Filadélfia, onde a Universidade da Pennsylvania
comemorava com um ciclo de conferências o centenário de nascimento do
criador da Logoterapia, trouxe-me a lembrança animadora de que na
história das idéias tudo se dá como na vida dos indivíduos: mesmo a
extrema indigência espiritual consolidada por séculos de idéias
deprimentes não impede que, de repente, a consciência do sentido da vida
ressurja com uma força e um brilho que pareciam perdidos para sempre. A
evolução do pensamento moderno, de Maquiavel ao desconstrucionismo, é
marcada pela presença crescente do fenômeno que denomino "paralaxe
cognitiva": o hiato entre o eixo da experiência pessoal e o da
construção teórica. Cada novo "maître à penser" esmera-se em criar
teorias cada vez mais sofisticadas que sua própria vida de todos os dias
desmente de maneira flagrante. A "análise existencial" de Frankl, a
contrapelo do "existencialismo" de Heidegger e Sartre que é uma apoteose
da paralaxe, recupera o dom de raciocinar desde a experiência direta,
que ao longo da modernidade foi renegada pelos filósofos e só encontrou
refúgio entre os poetas e romancistas.
O que Frankl descobriu em Thesienstadt foi que além do desejo de
prazer e da vontade de poder existe no homem uma força motivadora ainda
mais intensa, a "vontade de sentido": a alma humana pode suportar tudo,
exceto a falta de um significado para a vida. Ao contrário, dizia
Frankl, "se você tem um porquê , então pode suportar todos os comos ".
A privação de sentido origina um tipo de neurose que Freud e Adler não
haviam identificado, e que é a forma de sofrimento psíquico mais
disseminada no mundo de hoje: a neurose noogênica , isto é, de
causa espiritual, marcada pelo sentimento de absurdo e vacuidade. A
análise existencial é a redescoberta da lógica por trás do absurdo, a
reconquista do estatuto espiritual humano que torna a vida digna de ser
vivida. A logoterapia é a técnica psicoterápica que faz da análise
existencial uma ferramenta prática para a cura das neuroses noogênicas.
Uma pesquisa da Biblioteca do Congresso mostrou que "Man's Search for
Meaning", a mistura de autobiografia, análise filosófica e tratado
psicoterápico em que Frankl expõe as conclusões da sua experiência no
campo de concentração, é um dos dez livros que mais influenciaram o povo
americano. Se, a despeito disso, a obra de Frankl ainda não alcançou o
lugar merecido nas atenções do establishment acadêmico, é simplesmente porque este é o templo da paralaxe cognitiva.
* * *
Livros de Victor Frankl no Brasil:
Em Busca de Sentido (Vozes-Sinodal)
Psicoterapia Para Todos (Vozes)
A Questão do Sentido em Psicoterapia (Papirus)
Um Sentido para a Vida (Santuário)
Sede de Sentido (Quadrante)
Psicoterapia e Sentido da Vida (Quadrante)
A Presença Ignorada de Deus (Vozes-Sinodal)
http://www.olavodecarvalho.org/textos/1a_leitura_2005_nov.htm
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Descobrir tem mais a ver com perceber do que com construir. "Se vc não sente, a vida perde o sentido."
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A SOBERANIA DA CONSCIÊNCIA - A VOZ DA ALMA E A VOZ DO MUNDO
http://conspiratio3.blogspot.com.br/2013/04/a-soberania-da-consciencia-voz-da-alma.html
"mais vale saber sem poder provar do que produzir um milhão de provas daquilo que, no fundo, não se intui de maneira alguma. No mais das vezes, a simples afirmação direta do que se enxerga tem mais força do que muitos argumentos. Contra as tentações do erro e da fantasia, não há outra arma senão dizer a verdade com tal clareza, com tal precisão, que nenhuma finta, nenhum rodeio, nenhum jogo de cena ou artifício de palavras possa prevalecer contra ela. Ora, essa clareza não se obtém sem um tremendo esforço de atenção que é quase um exercício ascético. Olhando fixamente para dentro de seu coração, um homem "lê" o que está inscrito na sua consciência íntima, como palavras de um texto supremamente auto-evidente. "