"O
Brasil segue, por enquanto, no compasso da centralização absoluta de
todos os poderes e funções de estado, de maneira a instalar o
totalitarismo e escravizar a todos nós. Já conseguiram aprovar a reforma
tributária que vai concentrar 100% de todos os tributos recolhidos no
país, deixando as cidades e os estados totalmente dependentes do grande
paisão socialista federal e devem manter o controle do processo eleitoral, pois parece que não teremos contagem pública de todos os votos.Ou seja, só falta mesmo controlar todas as polícias do país." https://youtu.be/e31dRyrpZZY
*
*
"Hoje entendo que o esquerdismo não é um
ideal, uma crença, uma filosofia: é uma doença moral horrível, a
substituição do senso instintivo do bem e do mal por um conjunto de
artifícios lógicos que, por etapas, vão levando da mera perversão à
inversão completa, à santificação do mal e à condenação do bem." Olavo de Carvalho https://conspiratio3.blogspot.com/2023/05/olavo-de-carvalho-forca-diabolica-que.html
TOTALITARISMO E IDEOLOGIA - VACLAV HAVEL "No sistema "pós-totalitário", portanto, viver dentro da verdade tem mais
do que uma mera dimensão existencial (devolvendo a humanidade à sua
natureza inerente), ou uma dimensão noética (revelando a realidade como
ela é), ou uma dimensão moral (dando um exemplo para outros). Tem também
uma dimensão política inequívoca. Se o principal pilar do sistema é
viver uma mentira, então não é surpreendente que a ameaça fundamental ao
mesmo seja viver a verdade. É por isso que deve ser reprimido mais
severamente do que qualquer outra coisa." https://conspiratio3.blogspot.com/2023/11/tudo-e-politica.html
OLAVO DE CARVALHO · Toda
"minoria oprimida" começa mendigando direitos e termina exigindo e
impondo um PODER. Transita da choradeira à prepotência e da prepotência à
brutalidade assassina com a cara mais bisonha do mundo, como se
intimidar, agredir e matar fossem coisas tão inocentes quanto querer um
lugar no ônibus.
OLAVO DE CARVALHO - "Lenin dizia que, quando você tirou do adversário a vontade de lutar, já venceu a briga. Mas, nas modernas condições de “guerra assimétrica”, controlar a opinião pública tornou-se mais decisivo do que alcançar vitórias no campo militar. A regra leninista converte-se portanto automaticamente na técnica da “espiral do silêncio”: agora trata-se de extinguir, na alma do inimigo, não só sua disposição guerreira, mas até sua vontade de argumentar em defesa própria, seu mero impulso de dizer umas tímidas palavrinhas contra o agressor. (...) Calar-se ante o atacante desonesto é uma atitude tão suicida quanto tentar rebater suas acusações em termos “elevados”, conferindo-lhe uma dignidade que ele não tem. As duas coisas jogam você direto na voragem da “espiral do silêncio”. (...) "A única reação eficaz à espiral do silêncio é quebrá-la – e não se pode fazer isso sem quebrar, junto com ela, a imagem de respeitabilidade dos que a fabricaram. Mas como desmascarar uma falsa respeitabilidade respeitosamente? Como denunciar a malícia, a trapaça, a mentira, o crime, sem ultrapassar as fronteiras do mero “debate de idéias”? Quem comete crimes não são idéias: são pessoas. Nada favorece mais o império do mal do que o medo de partir para o “ataque pessoal” quando este é absolutamente necessário. Aristóteles ensinava que não se pode debater com quem não reconhece – ou não segue – as regras da busca da verdade. Os que querem manter um “diálogo elevado” com criminosos tornam-se maquiadores do crime. São esses os primeiros que, na impossibilidade de um debate honesto, e temendo cair no pecado do “ataque pessoal”, se recolhem ao que imaginam ser um silêncio honrado, entregando o terreno ao inimigo. A técnica da “espiral do silêncio” consiste em induzi-los a fazer precisamente isso." http://www.olavodecarvalho.org/semana/100920dc.html
"A lógica aí subentendida é a mesma que enaltece a prática do aborto em massa, mas pune como obscena incitação ao ódio a divulgação de vídeos que simplesmente descrevem o que é um aborto. Assim, gradativamente, tudo o que é abjeto e monstruoso vai-se transformando primeiro em coisa permitida, em seguida protegida, por fim obrigatória." "Essas tendências começam a germinar nos bas fonds da classe universitária e do ativismo organizado, quase inconscientemente de início, mas a velocidade da sua transformação postiça em "clamor público" é cada vez maior. O próprio elemento caricatural e grotesco que carregam em si inerentemente protege-as contra qualquer reação inicial, de modo que elas vão crescendo até o ponto em que toda reação se torna inviável. " "Tudo o que os conservadores e a população em geral consideram demasiado absurdo, demasiado louco para ser verdade, acaba acontecendo precisamente porque julgavam que era impossível." "A transmutação do criminoso em vítima e do denunciante em criminoso torna-se por fim regra geral, até que o país inteiro se transforme numa societas sceleris onde só criminosos psicopatas são admitidos nas altas esferas da fama e do poder." http://www.olavodecarvalho.org/semana/130805dc.html
Não sei quantas vezes tentei explicar a esses imbecis que o eleitor se pronuncia anonimamente de quatro em quatro anos, ao passo que a militância organizada se faz ouvir quantas vezes bem deseje, todos os dias se o quiser, dando o tom da política nacional e impondo sua vontade até mesmo contra um eleitorado numericamente superior. Mas a ideia de formar uma militância liberal e conservadora para disputar o espaço na praça pública lhes inspirava horror. Como iriam bater de frente na hegemonia do discurso "politicamente correto", se este, àquela altura, já se havia impregnado tão fundo nos seus próprios cérebros que já não viam perspectiva senão imitá-lo e parasitá-lo, na ânsia de ludibriar o eleitor e conservar assim os seus cargos, ainda que ao preço de esvaziá-los de qualquer mensagem ideológica diferenciada e própria? http://www.olavodecarvalho.org/semana/130619dc.html
* Olavo de Carvalho A Espiral do Silêncio https://youtu.be/O8YQKmUe-s8
Com
o politicamente correto, criminosos e incompetentes do congresso criam e
aprovam novas medidas, novas leis, novas categorias de crimes
SUBJETIVOS, para perseguir objetivamente opositores, como Jair
Bolsonaro, por exemplo, ou para deformar nossa percepção do MAL REAL e
neutralizar nossa reação natural de defesa ao PERIGO. E neste momento,
este movimento e seus agentes são este perigo, são a maior e mais
concreta ameaça à liberdade, a direitos reais, a valores, pricípios, e à
própria vida humana. No entanto, apesar desse poder, poucos deles estão
aptos para prever as consequências civilizacionais dessas mudanças.
Roger Scruton diz que depois que a máquina totalitária é posta em
funcionamento, nem mesmo esses que a construíram conseguem pará-la: "O
efeito da ideologia marxista é precisamente colocar o Estado comunista
no caminho da dominação. Ninguém acredita que ele deveria dominar, muito
menos aqueles que se desculpam por seus, "erros" e "desvios". Nem
qualquer cidadão de um Estado comunista deseja aumentar seu poder de
forma tão alarmante. Mas ninguém sabe como pará-lo, já que nenhuma razão
para pará-lo pode ser proferida sem penalidade instantânea. A ideologia
do comunismo sustenta que a obra do comunismo será finalizada quando o
comunismo tiver triunfado em todos os lugares. Embora não se possa crer
nisso, é o que acontece na prática: o propósito da ideologia é
precisamente fazer a crença irrelevante para a ação, cerrar os lugares
nos quais a discussão racionalizada poderia entrar, e alçar toda ação
para um objetivo único. A máquina de Estado do comunismo não está
somente fora de controle e acima de toda reprovação: está também atada a
um objetivo impessoal de proporções monumentais, do qual ela pode ser
demovida somente pela força. A força necessária para opor-se é sempre
maior, e a vontade para tentar é sempre menor." ***
Queridos amigos, não consigo acreditar, mas acabo de ser condenado. O motivo é porque eu fiz uma pergunta sobre os marroquinos. Enquanto antes de ontem, um sem número de candidatos a asilo marroquinos aterrorizavam ônibus em Emmen e sequer tiveram que pagar uma multa, um político que faz uma pergunta acerca de menos marroquinos é condenado. http://www.midiasemmascara.org/artigos/internacional/europa/16865-2016-12-15-16-07-24.html * É PROIBIDO PERCEBER Olavo de Carvalho Será que já esqueceram? O projeto de lei que dá à corrupção o estatuto de “crime hediondo” não teve origem inocente, nem sequer decente: foi enviado à Câmara em 2009 por aquele mesmo indivíduo que, acusado de inventor e gestor do maior esquema de corrupção que já se viu neste país, apostou na lentidão da Justiça como garantia de sua eterna e tranqüilíssima impunidade. Nada mais típico da mentalidade criminosa que a afetação de honestidade exagerada, hiperbólica, histriônica. Encobrindo com uma máscara de severidade o sorrisinho cínico que lhe vai por dentro, o capomafioso não se satisfaz com ostentar a idoneidade média do cidadão comum. Não. Ele tem de ser o mais honesto, o mais puro, o modelo supremo das virtudes cívicas e, no fim das contas, o caçador de meliantes, a garantia viva da lei e da ordem. Confiante, como sempre, na eficácia da sua performance, o indivíduo permitia-se até blefar discretamente, sabendo que, no ambiente de culto reverencial montado em torno da sua pessoa, ninguém se permitiria perceber que ele falava de si mesmo: “O corrupto é o que mais denuncia, porque acha que não será pego.” Isso era, de fato, mais que o resumo sintético de trinta anos de luta de um partido que galgou os degraus do poder escalando pilhas de cadáveres políticos embalsamados em acusações de corrupção. Era a definição do que aquele homem estava fazendo naquele mesmo momento. Mas quem, neste país, ainda é capaz de comparar a fala com a situação e distinguir entre a sinceridade e o fingimento? Li outro dia um estudo sobre os males do botox, que, travando o jogo natural dos músculos da face, destrói a expressão emocional espontânea e confunde a leitura imediata de sinais em que se baseia toda a convivência humana. Mais que o botox, porém, têm esse efeito as imposições legais e morais de um Estado psicologicamente prepotente e invasivo, que em nome dos direitos humanos extingue o direito às reações naturais. Se por lei é proibido distinguir, na fala e no tratamento, entre uma mulher e um homem vestido de mulher, ou entre a voz feminina e a sua imitação masculina, se a simples associação da cor preta com o temor da noite é alusão racista, se o simples fato de designar uma espécie animal pelo seu exemplar masculino é um ato de opressão machista, todas as demais distinções espontâneas, naturais, auto-evidentes, arraigadas no fundo do subconsciente humano pela natureza das coisas e por uma experiência arquimilenar, tornam-se automaticamente suspeitas e devem ser refreadas até prova suficiente de que não infringem nenhum código, não ofendem nenhum grupo de interesses, não magoam nenhuma suscetibilidade protegida pelo Estado. Quantas mais condutas pessoais são regradas pela burocracia legisferante, mais complexa e dificultosa se torna a percepção humana, até que todas as intuições instantâneas se vejam paralisadas por uma escrupulosidade mórbida e estupidificante, e o temor das convenções arbitrárias suprima, junto com as reações espontâneas, todo sentimento moral genuíno. Não é de espantar que, nessa atmosfera de inibição geral das consciências, a encenação de combate moralista por um corrupto notório não desperte nem mesmo o riso, e que a proposta cínica com que ele encobre seus próprios crimes seja levada literalmente a sério no instante mesmo em que ele, brincando com a platéia como gato com rato, se permite mostrar sua face de denunciante hipócrita sem o menor temor de que alguém venha a comparar suas palavras com seus atos. A desgraça vai mais fundo. Pouco a pouco, o código de inibições fabricado por grupos de pressão vai sendo elevado à condição de único sistema moral vigente, e ninguém parece se dar conta de que o nível de corrupção tem algo a ver com a moralidade comum. À medida que as consciências se entorpecem, as aspirações morais perdem toda ligação com a realidade e se enrijecem num ritual mecânico de poses e caretas sem sentido. Todos parecem imaginar que, num ambiente de degradação geral onde cinqüenta mil homicídios anuais são aceitos como uma banalidade indigna de discussão, é possível preservar intacto e imune um único bem – o dinheiro público –, isolado e protegido de todos os pecados. Num Estado para o qual as fantasias sexuais são mais santas, mais dignas de proteção do que os direitos da consciência religiosa e os princípios da moral popular, todo combate oficial à corrupção nunca pode passar de uma farsa – esta sim – hedionda.
"As ideias dos ativistas quase nunca significam o que dizem. Por baixo do seu conteúdo ostensivo escondem um objetivo estratégico que, no plano histórico, virá a constituir seu único conteúdo efetivo quando o jogo dialético das ideias e das ações tiver atingido seu resultado. Assim, por exemplo, durante anos o relativismo serviu de navio quebra-gelo para demolir resistências a propostas que, por sua vez, nada tinham de relativistas – eram, ao contrário, as mais absolutistas e intransigentes que se pode imaginar." http://www.olavodecarvalho.org/semana/130325dc.html
FALSOS RELATIVISTAS "As ideias dos ativistas quase nunca significam o que dizem. Por baixo do seu conteúdo ostensivo escondem um objetivo estratégico que, no plano histórico, virá a constituir seu único conteúdo efetivo quando o jogo dialético das ideias e das ações tiver atingido seu resultado. Assim, por exemplo, durante anos o relativismo serviu de navio quebra-gelo para demolir resistências a propostas que, por sua vez, nada tinham de relativistas – eram, ao contrário, as mais absolutistas e intransigentes que se pode imaginar." http://www.olavodecarvalho.org/semana/130325dc.html
Thomas Woods Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental - Se perguntarmos a um estudante universitário o que sabe do contributo da
Igreja Católica para a sociedade, sua resposta talvez se resuma a uma
palavra: «opressão», por exemplo, ou «obscurantismo». A verdade, porém, é
que essa palavra deveria ser «civilização». O autor destas páginas
mostra como toda a Civilização Ocidental nasceu e se desenvolveu apoiada
nos valores e ensinamentos da Igreja Católica. Em concreto, explica,
entre muitas outras coisas: por que o milagre da ciência moderna e de
uma filosofia que levou a razão à sua plenitude só puderam nascer sobre o
solo da mentalidade católica; como a Igreja criou uma instituição que
mudou o mundo: a Universidade; como ela nos deu uma arquitetura e umas
artes plásticas de beleza incomparável; como os filósofos escolásticos
desenvolveram os conceitos básicos da economia moderna, que trouxe para o
Ocidente uma riqueza sem precedentes; como o nosso Direito, garantia da
liberdade e da justiça, nasceu em ampla medida do Direito canônico;
como a Igreja criou praticamente todas as instituições de assistência
que conhecemos, dos hospitais à previdência; e como humanizou a vida, ao
insistir durante séculos nos direitos universais do ser humano – tanto
dos cristãos como dos pagãos. Num momento em que se propaga uma imagem
da Igreja como inimiga dos progressos da ciência e da técnica, bem como
da liberdade do pensamento, este é um livro que desfaz preconceitos,
corrige clichês e ensina inúmeras verdades teimosamente omitidas nas
instituições de ensino e em boa parte dos meios de comunicação. https://ecclesiae.com.br/como-a-igreja-catolica-construiu-a-civilizacao-ocidental---11-edicao
* * *
"Quando se deixa de acreditar em Deus, passa-se a acreditar em qualquer coisa." G. K. Chesterton
RELATIVIZAR A VERDADE, ABSOLUTIZA A OPINIÃO. E aqueles que relativizam a verdade querem ter sua voz absolutizada.
NOTAS DE UMA CÚMPLICE (...) O meu pai recordava que pessoalmente passou a acreditar no comunismo
depois do vôo de Gagárin. Somos os primeiros! Podemos fazer tudo! Era
assim que ele e a minha mãe nos educavam. Eu fui outubrista³, usava o
emblema com o menino de cabelos frisados, fui pioneira, komsomolka. A
desilusão veio mais tarde.
Depois da perestroika esperávamos que abrissem os arquivos. Abriram-os. Ficamos sabendo a história que escondiam de nós.
"Devemos atrair para nós noventa ou cem milhões que povoam a Rússia
Soviética. Com os restantes não devemos falar — é preciso ,
exterminá-los" (Zinóviev, 1918). "Enforcar (sem falta, enforcar,
para que o povo veja) não menos de mil kulaks presos, que enriquecem, e
tirar-lhe todos os cereais, designar reféns... De tal modo que a cem
quilômetros em redor o povo veja e trema" (Lênin, 1918). "Moscou
está literalmente a morrer de fome" (professor Kuznetsov para Trotski).
"Isso não é fome. Quando Tito ocupou Jerusalém, as mães judias comiam os
seus filhos. Quando eu forçar as vossas mães a comerem os seus filhos,
então pode vir ter comigo e dizer: 'Temos fome'" (Trotski, 1919).
As pessoas liam os jornais e as revistas e calavam-se. Sobre elas caiu
um horror insuportável! Como viver com isto? Muitos receberam a verdade
como uma inimiga. E a liberdade também. "Não conhecemos o nosso país.
Não sabemos em que pensa a maioria das pessoas, vemo-las, encontramo-las
todos os dias, mas não sabemos em que pensam, nem o que querem. Mas
temos a ousadia de lhes ensinar. Depressa saberemos tudo, e ficaremos
horrorizados", dizia um conhecido meu, com quem muitas vezes me sentava a
conversar na minha cozinha. Eu discutia com ele. Isto acontecia em
1991... Tempo feliz! Acreditávamos que no dia seguinte, literalmente
amanhã, começaria a liberdade. Começaria do nada, dos nossos desejos.
Dos Cadernos de Apontamentos de Chalámov: "Participei de uma grande
batalha perdida por uma verdadeira atualização da vida". Isto foi
escrito por um homem que passou 17 anos de detenção nos campos
stalinistas.
A nostalgia do ideal manteve-se... Eu dividiria as
pessoas soviéticas em quatro gerações: stalinista, khruschovista,
brejnevista e gorbatchovista. Pessoalmente, pertenço à última. Para nós
era mais fácil aceitar o colapso da idéia comunista, porque não vivemos
no tempo em que a idéia era jovem, forte, sem a perdida magia do
romantismo fatal e das esperanças utópicas. Crescemos no tempo dos
velhos do Kremlin. Nos magros tempos vegetarianos. O grande sangue do
comunismo já estava esquecido. O entusiasmo continuava os seus
desmandos, mas conservava-se o conhecimento de que não era possível
aplicar a utopia na vida.
Isto aconteceu durante a Primeira
Guerra da Chechênia... Conheci em Moscou, numa estação de caminho de
ferro, uma mulher que era das proximidades de Tambov e estava de partida
para a Chechênia, com o objetivo de tirar o filho da guerra: "Não quero
que ele morra. Não quero que ele mate." O Estado já não dominava a alma
dela. Era uma pessoa livre. Eram poucas as pessoas assim. A maioria
eram aqueles a quem a liberdade irritava: "Comprei quatro jornais e cada
um deles tem a sua verdade. Onde está então a verdade? Dantes líamos de
manhã o jornal Pravda e sabíamos tudo. Compreendíamos tudo." As idéias
saíam lentamente de sob a narcose. Se eu iniciava uma conversa acerca do
arrependimento, ouvia em resposta:
"De que devo eu
arrepender-me?" Cada qual se considerava vítima, mas não participante.
Um dizia: "Eu também estive preso." O segundo dizia: "Eu combati." E um
terceiro: "Levantei a minha cidade das ruínas, acartava tijolos dia e
noite". Isto era completamente inesperado: todos bêbados de liberdade,
mas não preparados para a liberdade. E onde estava ela, a liberdade? Só
na cozinha, onde por hábito continuavam a criticar o Poder. Criticavam
Yeltsin e Gorbatchov. Yeltsin porque traíra a Rússia. E Gorbatchov?
Gorbatchov porque traíra tudo. Todo o Século 20. E agora, o nosso país
será igual aos outros. Será como todos. Pensavam que desta vez se
conseguiria.
A Rússia mudara e odiava-se a si mesma por ter mudado. "O Mongol imóvel", escreveu Marx acerca da Rússia.
Civilização soviética... Apresso-me a registrar os seus vestígios. As
caras conhecidas. Interrogo não acerca do socialismo, mas acerca do
amor, do ciúme, da infância, da velhice. Sobre a música, as danças, os
penteados. Sobre os mil pormenores da vida que desaparecia. Este é o
único meio de dirigir a catástrofe para o quadro do habitual e tentar
contar alguma coisa. Adivinhar alguma coisa. Não paro de me espantar com
a maneira como a vida humana comum é interessante. Com a interminável
quantidade das verdades humanas.
A história interessa-se apenas
pelos fatos, e as emoções ficam fora de bordo. Não é costume admití-las
na história. Mas eu olho para o mundo com os olhos de uma humanista e
não de uma historiadora. Fico surpreendida com a pessoa...
O
meu pai já não é deste mundo. E eu não posso terminar uma das nossas
conversas... Dizia que morrer na guerra era mais fácil para ele do que
para os rapazes que agora morrem na Chechênia. Nos anos 1940, iam de um
inferno para outro inferno. Antes da guerra, o meu pai estudou em Minsk,
no Instituto de Jornalismo. Lembrava-se de que quando voltavam das
férias, muitas vezes já não encontravam um único professor conhecido,
estavam todos presos. Eles não compreendiam o que se passava, mas era
horrível. Horrível, como na guerra.
Tive poucas conversas
francas com o meu pai. Ele tinha pena de mim. E eu, tinha pena dele?
Tenho dificuldade em responder a esta pergunta... Éramos implacáveis com
os nossos pais. Parecia-nos que a liberdade era uma coisa muito
simples. Passou algum tempo, e nós próprios nos curvamos sob o peso
dela, porque ninguém nos ensinou a liberdade. Ensinaram-nos apenas como
morrer pela liberdade.
Ei-la, a liberdade! É como a
esperávamos? Estávamos prontos para morrer pelos nossos ideais, para
combater na batalha. Mas começou uma vida . Sem história. Ruíram todos
os valores, menos o valor da vida. Da vida em geral. Novos sonhos:
construir uma casa, comprar um bom carro, plantar uma groselheira... A
liberdade revelou-se a reabilitação da pequena burguesia, habitualmente
maltratada na vida russa. Liberdade de Sua Majestade o Consumo.
Majestade das trevas. Trevas dos desejos, dos instintos — da vida humana
oculta, da qual fazíamos uma idéia aproximada. A toda a história
sobrevivemos, mas não vivemos.
E agora a experiência militar já
não era necessária, era preciso esquecê-la. Milhares de novas emoções,
estados, reações De súbito tudo em redor como que se tornou diferente:
as tabuletas, as coisas, o dinheiro, a bandeira E até o próprio homem.
Tornou-se mais colorido, solto, explodiram o monólito, e a vida
espalhou-se em ilhas, átomos, células. Como em Dalh: liberdade-vontade,
liberdadezinha ampla vastidão. O grande mal tornou-se uma lenda
distante, um romance de suspense político. Já ninguém falava de idéias,
falavam de créditos, de juros, de letras, não ganhavam dinheiro a
trabalhar, mas "faziam-no" em "jogadas".
Seria por muito tempo?
"A mentira do dinheiro na alma russa impoluta", escreveu Marina
Tsvetáeva. Mas parece que os heróis de Ostrovski e de Saltikov-Schedrin
ganharam vida e se passeiam pelas nossas ruas.
A todas as
pessoas com quem me encontrei, perguntava: "O que é a liberdade?" Pais e
filhos respondiam de modos diferentes. Aqueles que nasceram na URSS e
os que já não nasceram na URSS têm experiências distintas. São pessoas
de planetas diferentes.
Os pais: a liberdade é a ausência de
medo; três dias em agosto, quando vencemos o golpe; uma pessoa que
escolhe numa loja entre cem variedades de salame é mais livre do que a
pessoa que escolhe entre dez variedades; não ser espancado, mas nunca
chegaremos às gerações não espancadas; o homem russo não compreende a
liberdade, precisa do cossaco e do látego.
Os filhos: a
liberdade é o amor; a liberdade interior, um valor absoluto; quando não
temos medo dos nossos desejos; ter muito dinheiro, e nesse caso teremos
tudo; quando se pode viver de tal maneira que não se pensa na liberdade.
A liberdade é o normal.
Procuro uma linguagem. O homem tem
muitas linguagens: a linguagem que usa com os filhos, e mais uma, a do
amor Há ainda a linguagem a que recorremos quando falamos conosco
mesmos, quando travamos diálogos interiores. Na rua, no trabalho, nas
viagens — por todo o lado se ouve qualquer coisa diferente, mudam não
apenas as palavras, mas qualquer coisa mais. Uma pessoa até de manhã e à
tarde fala de modos diferentes. E aquilo que acontece durante a noite
entre duas pessoas desaparece por completo da história. Tratamos apenas
da história do homem diurno. O suicídio é um tema noturno, a pessoa
encontra-se no limite da existência e da não existência. Do sono.
Quero entender isto com a precisão da pessoa diurna. Disseram-me: "Não tem medo de que isso lhe agrade?"
Seguimos pela estrada de Smolensk. Paramos numa aldeia ao lado de uma
loja. Uns conhecidos (eu própria cresci nesta aldeia), uns rostos
bonitos, bondosos, e em redor uma vida humilhante, pobre. Conversamos
acerca da vida.
"Pergunta-me sobre a liberdade? Entre na
nossa loja: vodca, há toda a que se queira: Standart, Gorbatchov
Putinka, salame à farta, e queijo, e peixe. Até há bananas. De que outra
liberdade precisa? Esta para nós é suficiente." "E deram-lhes terra?"
"Quem é que vai mourejar nela? Se a queres, toma-a. Aqui só o Vaska
Krutoi aceitou. O filho mais novo tem oito anos e anda atrás do arado ao
lado do pai. Se fores trabalhar para ele, não penses em juntar algum
dinheiro, ele nem dorme. É um fascista!"
Na "Lenda do Grande
Inquisidor" de Dostoiévski há uma discussão sobre a liberdade. Diz-se
que o caminho da liberdade é difícil, sofrido, trágico "Para que
conhecer esse diabo desse bem e desse mal, se isso custa tanto?" O homem
tem sempre que escolher: a liberdade ou o bem-estar e a organização da
sua vida, a liberdade com sofrimento ou a felicidade sem liberdade. E a
maioria das pessoas segue por esse segundo caminho.
O Grande Inquisidor diz a Cristo, que voltou à Terra: "Porque vieste cá incomodar-nos? Porque tu vieste incomodar-nos e sabes isso muito bem".
"Ao respeitá-lo [ao homem], tu procedeste como se tivesses deixado de
sentir compaixão por ele, porque exigiste demasiado dele Ao respeitá-lo
menos, exigias-lhe menos, e isso estaria mais perto do amor, pois o
fardo dele seria mais leve. Ele é fraco e vil Que culpa tem a alma
fraca, se é incapaz de juntar em si tão terríveis dons?"
"Não
há preocupação mais constante e torturante para o homem do que, ao
ficar livre, procurar depressa alguém diante de quem se inclinar a quem
transmitir depressa o dom da liberdade com que esse ser infeliz nasce".
Nos anos 1990 sim, éramos felizes, e essa nossa ingenuidade já nunca
mais volta. Parecia-nos que a escolha estava feita, que o comunismo
tinha perdido sem apelo. Mas tudo estava apenas a começar.
Passaram-se vinte anos... "Não nos assustem com o socialismo", dizem os filhos aos pais. De uma conversa com um professor universitário meu conhecido:
"No final dos anos noventa os estudantes riam-se quando eu recordava a
União Soviética; estavam confiantes de que à sua frente se abria um novo
futuro. Agora o quadro é diferente Os estudantes de hoje já
descobriram, já sentiram o que é o capitalismo — a desigualdade, a
pobreza, a riqueza descarada, têm diante dos olhos a vida dos pais para
quem nada restou do país saqueado. Sonham com a sua revolução. Usam
camisolas vermelhas com retratos de Lênin e de 'Che' Guevara."
Cresceu na sociedade o interesse pela União Soviética. Pelo culto de
Stálin. Metade dos jovens dos 19 aos 30 anos consideram Stálin "o maior
dirigente político". Num país em que Stálin liquidou tantas pessoas como
Hitler, um novo culto de Stálin?! Tudo o que é soviético está outra vez
na moda. Por exemplo, os cafés "soviéticos" — com nomes soviéticos e
pratos soviéticos. Surgiram os bombons "soviéticos" e o salame
"soviético" — com o cheiro e o sabor nossos conhecidos desde a infância.
E, é claro, a vodca "soviética". Na televisão há dezenas de
transmissões e na Internet dezenas de sites nostálgicos "soviéticos".
Podem fazer-se visitas turísticas aos campos stalinistas — em Solovka,
em Magadan. O anúncio promete que para mais completa sensação fornecem
um fato do campo e uma picareta. Mostram os barracões restaurados. E no
final organizam uma pescaria.
Renascem idéias antiquadas:
sobre o Grande Império, sobre a "mão de ferro", "sobre a via russa
especial" Reapareceu o hino soviético, há o Komsomol, mas chama-se
simplesmente "Nachi" (os "Nossos"), há o partido do Poder, que copia o
Partido Comunista. O presidente tem um poder como o do secretário-geral.
Absoluto. Em vez do marxismo-leninismo, a religião ortodoxa.
Antes da revolução de 1917, Aleksandr Grin escreveu: "E o futuro parece
ter deixado de estar no seu lugar." Passaram cem anos, e de novo o
futuro não está no seu lugar. Chegou um tempo em segunda mão. A
barricada é um lugar perigoso para um artista. Uma armadilha. Ali
estraga-se a vista, obscurece a íris, o mundo perde a cor. Na barricada,
o mundo é preto e branco. Dali já não se distingue o homem, vê-se
apenas um ponto negro — um alvo. Passei toda a vida nas barricadas e
queria sair delas. Aprender a alegrar-me com a vida. Recuperar a visão
normal. Mas dezenas de milhares de pessoas saem de novo para as ruas.
Dão-se as mãos, trazem fitas brancas nos blusões, símbolo do
renascimento. Há cor. E eu estou com elas. Encontrei nas ruas jovens com a foice e o martelo e o retrato de Lênin nas camisolas. Saberão eles o que é o comunismo?
Liberdade permite a descoberta da verdade, do conhecimento, dos valores e dos fundamentos para a ação. Podemos testemunhar hoje, na Internet LIVRE, que a massiva busca da verdade faz o real fact checking e devolve à sociedade o senso de realidade.
*
"O capital intelectual é o que define o destino das nações" Olavo de Carvalho
A conclusão, que o Sr. Stedile jamais declara, mas que qualquer garoto de escola pode tirar sem dificuldade, é que ou a sociedade terá de viver num estado de guerra permanente, ou uma das classes terá de ser eliminada — sendo difícil conceber como se poderia dar fim a uma classe sem suprimir fisicamente bom número de seus membros.
Essa doutrina é nossa conhecida de velhos e sangrentos carnavais. Levada à prática, custou a vida de mais de 100 milhões de pessoas — o episódio mais mortífero da História humana desde o dilúvio.
Mas estou pondo o carro adiante dos bois. Deixem-me contar a história desde o começo. Meu interesse pelas crenças do Sr. Stedile nasceu há tempo em Porto Alegre, onde, com meu amigo, o brilhante estudioso Cândido Prunes, tive durante algumas horas, na Bienal do Livro de 1997, o extravagante prazer de debatê-las com o próprio Sr. Stedile e seu fiel escudeiro frei Sérgio Görgen.
Tendo-as ouvido, não saí, no entanto, estupefato, pela simples razão de que já as viera ouvindo pela vida a fora, pelo menos desde os quatorze anos de idade, quando pela primeira vez topei com um comissário do povo incumbido de ensinar aos jovens o caminho da felicidade universal, que, como o resumiu um adágio da Revolução Francesa, consiste em enforcar seres humanos uns nas tripas dos outros.
Quem ficou estupefato foi o próprio Sr. Stedile, porque, habituado pela mídia a um tratamento de menino mimado, pela primeira vez em sua vida teve a pedagógica e repugnante oportunidade de ouvir uma resposta substantiva. Sim, reconheço que maltratei sadicamente o cérebro do Sr. Stedile, mostrando-lhe as últimas coisas que ele desejaria saber.
Não é de espantar que ele tenha saído espumando de cólera, batendo o pezinho e maldizendo, alto e bom som, a hora em que aceitara o convite para o debate.
Mas vamos por partes. Após ter exposto as premissas de sua doutrina, o Sr. Stedile deu alguns exemplos de contradições antagônicas. O primeiro foi que o regime instalado no país em abril de 1964 esmagara as Ligas Camponesas mediante a eliminação física de seus líderes. Respondi que o episódio se dera em 1963, um ano antes da posse do Marechal Castelo Branco, que só poderia ter cometido o crime pelos métodos do Exterminador do Futuro.
Alegou então o Sr. Stedile, como prova da violência reacionária contra os camponeses progressistas, o massacre de Canudos. Canudos, respondi, fora um movimento monarquista e conservador, afogado em sangue pelos progressistas que tinham acabado de derrubar o regime imperial.
Em resposta, o cortejo de militantes que acompanhava o Sr. Stedile em trajes típicos — boné, sacola a tiracolo — começou a gritar, vaiar e uivar, para impedir que os fatos históricos continuassem a tirar de seu guru todo o prazer de viver. Não tive remédio senão disparar sobre os valentes meninos um enérgico "Cala a boca!", que, para minha surpresa, os fez mudar de atitude instantaneamente, passando dos rosnados viris aos muxoxos de donzela magoada. Alguns levantaram-se para protestar, com pose de aluninhos bem comportados, contra a grosseria do debatedor escolhido para confrontar-se com a alma delicada do Sr. Stedile. O próprio Sr. Stedile, aproveitando a deixa, declarou que se soubesse que iria receber da parte de seu opositor um tratamento tão brutal, jamais teria ido àquele lugar maldito. Estas sábias palavras foram aplaudidas com entusiasmo. Eu mesmo as aplaudi, fascinado pela desenvoltura artística com que aquele talentoso orador passava do furor heróico aos gemidos de autocomiseração.
Percebi então que o Sr. Stedile só estava acostumado a enfrentar-se com dois tipos de pessoas: no campo, fazendeiros armados que desejariam matá-lo; na cidade, políticos, intelectuais e ricaços que o adulam. Um simples cidadão sincero, capaz de lhe dizer na lata coisas patentes, era demais para a sua cabeça.
Pior ainda ficou ele, esfregando nervosamente as mãos na impossibilidade de me estrangular em público, quando eu disse que o MST, embora pose de inimigo número um do imperialismo, não faz nenhum dano aos poderes internacionais; que estes, ao contrário, lhe dão vasto apoio financeiro e midiático em troca de sua ajuda para enfraquecer o Estado nacional brasileiro, o que é parte essencial da estratégia globalizante, empenhada em fomentar movimentos de reivindicação que obriguem as nações a viver de ajuda internacional; que, no conjunto, o MST só ataca empresários rurais, uma classe que, poderosa regionalmente, nada significa em escala mundial; e que, enfim, tudo se resume no velho circuito descrito por Bertrand de Jouvenel: um poder maior e central, para se afirmar, destrói poderes intermediários com a ajuda de uma massa de insatisfeitos que nem de longe imaginam a quem servem.
A estas observações ninguém me respondeu nada. Os cérebros ficaram paralisados pelo impacto de uma novidade indigerível. Concluí então que uma causa fundada na falsidade e no auto-engano só poderia propagar-se à força de mentiras. A mais notável delas era o famoso "estado de violência" que, segundo o MST afirma e a imprensa mundial ecoa, é geral e endêmico no campo brasileiro. Exibi então as estatísticas trazidas no livro de autoria do próprio Stedile, A Questão Agrária no Brasil, segundo o qual a taxa de homicídios em toda a área rural brasileira — todo um continente, habitado pela quarta parte da população brasileira —, tinha sido de 40 a 50 casos por ano entre 1991 e 1995 — um número aproximadamente igual à quota, não anual, mas mensal, dos morros cariocas, cuja população não chega a dois milhões de pessoas. Os dados do Sr. Stedile mostravam que, comparado às áreas urbanas, o campo é a área mais estável e pacífica do Brasil. Como conseguia o MST fazer tanto alarde em torno de tão minguados horrores sem o apoio interesseiro dos poderes internacionais, que a doutrina oficial da esquerda afirmava serem aliados dos latifundiários? Era aos fazendeiros ou ao MST que a Comunidade Econômica Européia dava dinheiro, a ONU legitimação política, a grande imprensa novaiorquina respaldo publicitário? Quem, afinal, servia às forças globalizantes?
Convidado a dirigir perguntas ou objeções a seu opositor, o Sr. Stedile declarou que nada tinha a responder a um sujeito tão horroroso, sendo seu aristocrático mutismo secundado pelo de frei Sérgio Görgen, seu acólito. Respondi a essa não-pergunta observando que era próprio do monólogo totalitário nada perguntar, mas viver imerso na auto-satisfação de afirmar, afirmar e afirmar.
Ainda sem responder, o sr. Stedile entrou logo nas suas "considerações finais", de pé para fazer da mesa de debates um palanque, gesticulando muito, ocupando por meia hora, sem apartes, o prazo de dois minutos que lhe fora concedido, e preenchendo-o com um vocabulário seleto, no qual se discerniam, entre outros termos científicos, o nome da mais velha profissão da humanidade e o do membro masculino, ambos começando com ''p" e terminando com "a", sendo no fim entusiasticamente aplaudido pelos que haviam protestado contra a incontinência verbal de seu adversário.
Em seguida, alegando não sei quais compromissos, retirou-se do debate, cumprimentando todos os membros da mesa exceto um (no que seria depois imitado por frei Sérgio, religiosamente).
Após a saída do líder, os militantes dividiram-se: uns foram embora, desistindo de uma conversa que não poderia trazer ao MST nenhum dividendo político. Outros redobraram de ferocidade. Um deles gritou que nós outros, defensores de um determinado "modelo de sociedade" éramos uns "mercadores da morte". Outro, ou o mesmo, não lembro direito, afirmou que o capitalismo matara todos os índios. Ao primeiro, convidei a mostrar, nos meus livros, uma linha, ao menos, que propusesse algum modelo de sociedade. Ao segundo, ou ao mesmo, observei que a destruição das nações indígenas no Brasil fora anterior ao advento do capitalismo, tratando-se portanto, de um segundo Exterminador do Futuro. Seguiram-se novos gritos e protestos, sendo então encerrada, entre apupos e furores, a singular troca de idéias. Troca na qual levei prejuízo, não tendo recebido nenhuma em retribuição das minhas.
Ao voltar ao Rio, tive a surpresa ingratamente lisonjeira de descobrir que muitas pessoas consideravam uma covardia abominável designar-me para enfrentar o Sr. Stedile, tendo em vista o que presumiam ser uma desproporcional dotação de nossos respectivos QIs (no entanto jamais cotejados cientificamente). Essa reação revelou-me um curioso traço da nossa psicologia coletiva: ela encara a inteligência e o conhecimento como forças físicas, que nos debates deveriam ser graduadas igualitariamente, a bem da justiça. Quando um simples cidadão sem cargo ou dinheiro, armado tão somente de sua cabeça e de seus estudos, enfrenta um líder político que vem escorado em vastas organizações, verbas milionárias e uma massa de militantes enfurecidos, o covarde é o primeiro, não o segundo. Entre Cícero com sua eloqüência e César com seus exércitos, covarde é Cícero. Entre Leon Trotski com seus panfletos e Stálin com seus guardas, covarde é Trotski.
Mas, deixando de lado essas manifestações de igualitarismo paroxístico, muito influentes aliás nas "políticas culturais" de hoje, tive ainda, em casa, a ocasião de completar minhas impressões lendo numa revista de São Paulo (Caros Amigos, Ano 1, no 8, nov. 1997) uma longa entrevista do sr. Stedile, onde finalmente acreditei ter compreendido algo da sua personalidade política.
A chave para a decifração dessa criatura enigmática está no estilo do seu discurso. Desde o falecimento do ministro José Maria Alkmin, nenhum brasileiro superou o Sr. Stedile na arte da linguagem escorregadia. Mas entre eles há diferenças substanciais. O primeiro era nebuloso em tudo; o segundo o é apenas no que se refere à sua identidade política, sabendo ser bastante claro e incisivo ao definir a dos adversários. Alkmin era vago em atos e palavras, o Sr. Stedile o é somente em palavras: seus atos têm um sentido muito definido, que o discurso nebuloso busca disfarçar.
A técnica do Sr. Stedile consiste em evitar dar às suas ações mais óbvias os nomes que elas obviamente têm. Ele se esquiva às definições pela mesma razão com que um índio se esquiva de fotografias: para evitar que sua alma seja capturada. A palavra é poder: aquilo que podemos nomear, podemos de algum modo dominar. O sucesso das ações do Sr. Stedile depende em última instância de que ninguém saiba exatamente o que ele está fazendo. Por isto, num mundo em que tantos se queixam da incompreensão alheia, ele foge da alheia compreensão como um vampiro foge da luz do dia.
A nebulosidade começa pela própria figura social do personagem. Esse intelectual diplomado em Economia por uma universidade paga (PUC do Rio Grande) procura falar errado como um homem do povo, mas às vezes se equivoca e inadvertidamente começa a conjugar os verbos e flexionar os adjetivos com aprimorada correção. No debate em Porto Alegre, acuado pelos cálculos de Cândido Prunes, ele primeiro se fez de ignorante, dizendo que não era justo cobrar de um simples lutador pelas nobres causas a leitura de "tudu êssis livru" (sic); tão logo sentiu firmeza, começou a despejar sobre o adversário estatísticas e cálculos — impertinentes, mas expostos em linguagem de professor da USP.
Mais nebuloso ainda é o estado em que ele procura manter a identidade do MST — "um movimento sui generis, ao mesmo tempo de caráter popular, sindical e político", que os esquerdistas mesmos não entendem, pois "nunca existiu um movimento que reunisse essas três características". Será mesmo? Em escala nacional, sim. Mas, na história do mundo, um movimento que invade terras e instala no campo uma administração paralela para ir tomando aos poucos o lugar dos órgãos oficiais não é novidade nenhuma. Surgiu na Rússia pré-revolucionária com o nome de soviete. Até a principal diferença que separa o MST dos movimentos sindicais assinala a sua identidade com os sovietes: ele não se compõe só de camponeses, como um sindicato de classe, mas inclui engenheiros, economistas, assessores de imprensa e, last not least, técnicos em guerrilha. Sim, ele não é um órgão de representação profissional. É um braço da estratégia revolucionária e a semente da futura administração rural comunista. Ao lançar o manto da nebulosidade sobre um fenômeno de identidade tão manifesta, o Sr. Stedile açambarca em proveito da estratégia comunista, espertamente, o próprio fato de o comunismo estar fora de moda: desconhecendo tudo da estratégia leninista que lhe parece coisa do passado, o público não poderia reconhecê-la nem mesmo sob o mais tênue e relaxado disfarce, e encontra-se pronto a servi-la quando ela se apresenta sem nome.
É por isso que o Sr. Stedile, após defender as velhas e ortodoxas doutrinas da luta de classes, da destruição do aparelho de Estado burguês, etc. etc., pode, sem corar, negar que é marxista, negar que é leninista e, para cúmulo, negar até mesmo, como o faz com vigor em sua entrevista, que seja um homem de esquerda no sentido mais geral do termo!
"Detestamos rótulos", afirma ele. "Fazemos uma campanha permanente contra o rótulo". Mas essa firme determinação inverte-se quando a cola vai para o outro lado. Os inimigos do MST são facilmente catalogados em "neoliberais", "imperialistas", "reacionários" etc., sem que isto desperte a rotulofobia do Sr. Stedile. Eu mesmo tive a oportunidade de receber, da parte de militantes do movimento, o carimbo de "neoliberal", embora minha única participação em entidades que professam essa doutrina tenha sido, precisamente, uma conferência no Instituto Liberal do Rio sob o título "Por que não sou neoliberal".
Não é preciso dizer que, no são entendimento humano, nem todos os nomes são meros rótulos, catalogações exteriores inadequadas à natureza da coisa. Quando chamamos uma galinha de galinha, um jumento de jumento ou o Sr. Stedile de Sr. Stedile, não estamos rotulando: estamos nomeando. Mas quando o Sr. Stedile, tendo negado peremptoriamente que é esquerdista, logo em seguida se qualifica de "socialista cristão" e mesmo após o galo cantar três vezes não explica que raio de coisa poderia vir a ser um socialismo não-esquerdista, então compreendemos que ele está precisamente se rotulando para esconder por trás do rótulo o verdadeiro nome da coisa; que, em suma, ele prefere antes o mais falseado dos rótulos, quando lhe é útil politicamente, do que o mais apropriado dos nomes, quando lhe é politicamente incômodo.
Í
O sr. Stedile pode ser, no plano pessoal, um homem honesto — honesto com sua esposa, com seus credores, com seus amigos. Nada sei que, como ente biológico e civil, o desabone. Política e intelectualmente, porém, seu discurso é a coisa mais tortuosa, mais mentirosa e mais dissimulada que tem aparecido no cenário nacional. E que sua figura política seja imposta ao público como a imagem por excelência do bom menino, como a encarnação mesma dos "sentimentos nobres" massacrados pelo cínico mundo capitalista, eis aí a prova de que este país vai perdendo, junto com o senso da verdade, todo discernimento moral.
Inédito (17/05/98).