Desde a publicação do livro do delegado Romeu Tuma Jr.
ninguém ignora que o assassinato de reputações, praticado com recursos
do Estado e primores de sordidez que desafiam a imaginação humana, é o
procedimento usual e normal da quadrilha comunopetista para lidar com
aqueles que a incomodem.
Mas, no tempo em que o delegado começou a beber sua quota desse veneno,
a poção só era servida a políticos, a altos funcionários ou a
empresários dos quais se desejasse extorquir algum dinheiro.
Desde então a indústria da intriga progrediu muito. Sofreu ao mesmo
tempo uma transformação e um upgrade, ampliando o seu círculo de alvos
e elevando-se a instrumento perfeito da censura total, do controle
completo do fluxo de informações, uma espécie de Marco Civil
avant-la-lettre.
Não existindo um partido de direita, nem qualquer força política de
direita organizada, nem muito menos poderes financeiros sustentando uma
militância de direita, nem, enfim, nenhuma classe ou entidade sobre a
qual se possa lançar as culpas de todo o mal que o governo faz, só resta ao esquerdismo voltar suas baterias contra indivíduos, cidadãos
isolados e sem qualquer respaldo político ou econômico – jornalistas,
escritores, blogueiros – e atacá-los com a fúria e o desespero de quem
defendesse a própria vida contra uma invasão imperialista ou um golpe
militar.
A quantidade de pavor imaginário que esses indivíduos despertam nas
hostes esquerdistas – bem como em pequenos grupos de extrema direita
empenhados em mostrar serviço --, o volume dos recursos que se
mobilizam para emporcalhar suas imagens, a obstinação devota que se
consagra à criação de toda sorte de invencionices, calúnias e chacotas
contra eles, constituem sem dúvida um capítulo notável da história da
covardia universal – algo que não se poderia passar, talvez, em nenhum
outro país, e que as gerações futuras chegarão a duvidar de que possa
ter acontecido.
Contudo, como toda difamação pode ser desfeita em pó e toda calúnia
voltar-se contra o caluniador, logo esse bombardeio de infâmias cessou
de satisfazer à sanha destrutiva que a inspirava.
De fato, chega a ser cômico usar contra um escritor táticas de
"character assassination" que seriam letais se voltadas contra um
político ou alto funcionário. A fama de um escritor jamais depende de
uma imagem de idoneidade impoluta, mas da sua simples habilidade de
registrar seus pensamentos e emoções, quaisquer que sejam, bons ou
maus, e comunicá-los ao público. Mesmo que o exército de difamadores
alcançasse sucesso em me pintar nas cores de um réprobo, de um
criminoso, de um monstro, isso não me privaria de um só leitor.
Ninguém jamais deixou de ler Jean Genet por causa da sua folha corrida,
nem de apreciar os poemas de Rimbaud ao saber que o autor foi
contrabandista de armas. Ninguém parou de ler André Gide quando ele
próprio se confessou pedófilo. E nem mesmo o mais escandaloso dos
rótulos – o de colaborador do nazismo – tirou leitores de
Louis-Ferdinand Céline, de Martin Heidegger ou de Paul de Man. Em todos
esses casos, os crimes eram verdadeiros. Quanto mais impotente não
seria então a imputação de delitos e pecados imaginários?
Foi por isso que se passou de uma estéril campanha difamatória ao
bloqueio dos meios de expressão.
Tão logo o deputado Marco Feliciano d enunciou na Câmara a campanha de
assassinato de reputação que eu vinha sofrendo (veja-se
https://www.youtube.com/watch?v=CIFB9RXmIi0), a militância do crime,
decerto mobilizada por alguma Excelência em pânico, mudou de tática e
passou a tentar bloquear a minha conta no Facebook para que, diante do
assalto multitudinário à minha pessoa e à minha honra, não me restasse
nem o miserável e último recurso de defesa que é espernear na internet.
O ardil consiste simplesmente em entrar na minha conta desde um IP
qualquer que não seja o meu, acionando automaticamente o Facebook para
que bloqueie a conta e inicie um procedimento de verificação. Tentaram
isso esta semana, usando um IP registrado numa cidade da Índia.
Como eu conseguisse restaurar a conta, aperfeiçoaram o sistema.
Fornecem ao Facebook, usando a minha senha de que se apossaram não sei
como, um número de telefone falso (desta vez foi +33 7 87 16 56 82), de
modo que o código para restauração da conta é enviado a esse número e
não chega jamais a mim. Assim, torna-se impossível reativar o acesso à
página. Os quase cinqüenta mil leitores que ali me acompanham me
escrevem, perguntando quando voltarei ao ar, e só o que posso lhes
responder é: Não sei.
A coisa é de uma sordidez impensável, mas, se querem saber, não me
surpreende que a militância "enragée" apele a esse recurso, ou talvez a
outros mais abjetos ainda. A mentalidade dessa gente faria os porcos
vomitarem, se lhes fosse servida no cocho.
Porém igualmente desprezíveis são aqueles que, no intuito de isentar de
culpas uma lideranca política que notoriamente estimula esses crimes e
recompensa os agentes que os praticam, dizem: "Ah, isso não é nada, é
só um grupo de jovens gozadores." Pois desde quando, pergunto eu, desde
quando uma facção governante, ao praticar um crime, o assina com o
carimbo da sua identidade partidária? Os Black Blocs não eram também
apenas jovens gozadores até o momento em que comprovou de onde vinham
as ordens e o pagamento? Os próprios mensaleiros não eram simples
ladrõezinhos avulsos, que agiam pelas costas do inocente poder público?
Nada no mundo é mais repulsivo do que a afetação de inocência de um
psicopata cujos trejeitos de candura mal escondem o risinho cínico que
lhe sai do canto da boca